Sábado, 30.01.10
O gênero pressupõe o papel e a função nas relações com as outras pessoas, é a.
condição que o indivíduo assume na sociedade. Ser masculino ou feminino não é
conseqüência de ter nascido menino ou menina, e sim, de uma construção social. Já o sexo, é conceito biológico, distingue o macho e a fêmea da espécie, classifica as pessoas em homens e mulheres. A prática da violência contra o gênero feminino ao longo da história não é fruto da natureza humana e sim do processo de socialização das pessoas. A cultura patriarcal é uma característica histórica da nossa sociedade. De acordo com o “Dicionário brasileiro da língua portuguesa”, o patriarcado “é o regime em que o chefe de família ou patriarca tem poder absoluto em sua casa”. Há uma estrutura hierarquizada em que o marido e o pai exercem autoridade e poder sobre suas esposas e filhos. A sociedade atual ainda possui certa influência dessa cultura. Para garantirem este poder, os homens ainda hoje recorrem à força física. Lares desestruturados, pais negligentes, deterioração de valores éticos, falta de diálogo entre casais e alcoolismo também contribuem para esta violência.
A cada ano, dois milhões de mulheres são espancadas no Brasil. A cada dia, cinco mil.
Os casos que chegam às delegacias são uma ínfima amostras da realidade. Os mais comuns são os de lesões tentativas de homicídio, homicídios, difamações e injúrias (). Violam-se direitos fundamentais como direito à vida, à liberdade, à saúde, à intimidade, à integridade física, à integridade moral, etc.
As agressões, que podem ser físicas, psicológicas e sexuais ocorrem isoladas ou.
simultaneamente.
A violência física envolve danos físicos, ferimentos corporais que ocorrem em razão de chutes, socos, empurrões. O companheiro transforma objetos domésticos (facas, tesouras ou o que estiver pela frente) em armas de agressão, causando hematomas, ferimentos, fraturas, cortes graves, que poderão até levar a vítima à morte.
A violência psicológica ou moral tem um grande impacto sobre a saúde mental das mulheres. Consiste em ameaças, intimidação, constrangimentos, injúrias. Os casos mais comuns são de ameaças de ficar sem os filhos, acusações de infidelidade, impedimento de trabalhar, de estudar, de ter amizades. Ela atinge o íntimo, a parte psíquica do indivíduo.
Gera conseqüências psicológicas como medo, insegurança, terror, agitação, ansiedade, impotência e incapacidade de atuar, desespero, sensação de abandono, desvalorização pessoal, constante depressão, queda de auto-estima, stress. Este forte impacto sobre a saúde mental da mulher a atinge também na forma física. Ela é continuada no tempo e não deixa marcas evidentes no corpo. Pode camuflar-se em doenças alérgicas e auto-imunes como o reumatismo (a imunização destas doenças é feita por anticorpos produzidos dentro do próprio corpo). Essa violência pode conduzir também à alterações de postura corporal ou
às relações psicossomáticas, que são aquelas inter-relações entre processos mentais, emocionais e somáticos (pertencentes ou relativos ao corpo). Um exemplo é a gastrite, causada pelo stress.
Considera-se violência sexual como qualquer forma de crime contra liberdade
sexual. É comum a atividade sexual não consentida, incluindo ameaças, força física, intimidação. Há uma divergência na doutrina sobre a possibilidade do marido praticar o crime de estupro contra a esposa.
O casamento não implica na supressão da liberdade sexual da mulher. Não haverá o exercício regular de um direito neste comportamento, pois ainda que admitido o direito, seu exercício não será regular. Se a esposa descumpre injustificadamente o dever conjugal de manter relações sexuais com o marido, poderão recair sobre ela as sanções previstas no Direito Civil.
A violência sexual poderá ter conseqüências drásticas como uma gravidez indesejada (filhos resultantes da violência), abortos, doenças sexualmente transmissíveis, queda de auto-estima, a sexualidade passa a ser encarada como punitiva.
O agressor vem de lares em que os pais quase sempre brigam física e
verbalmente diante dos filhos, dão surras em qualquer situação e os ameaçam para conseguir as atitudes desejadas. Pais desatentos, ausentes e negligentes em sua função contribuem para a formação de um indivíduo com extensa confusão mental, associada a frustrações sociais e de comportamento diferenciado. Para Célia Zapparolli, presidente do Instituto Pró-Mulher de São Paulo, filhos de famílias violentas se tornam violentos e geram famílias violentas. Eles acabam entendendo a violência como algo natural.
Na periferia das grandes cidades, a criança nasce em um local onde matar e bater é um modo aceitável de solucionar problemas. Ver cadáveres nas ruas já é algo rotineiro.
Crescem então com uma tendência maior à violência. O freio moral deixa de existir.
Isso tudo influencia na deterioração dos valores éticos que deveriam permear as relações sociais, e que daí resulta. A deterioração produz desastrosos efeitos na socialização das gerações. Um desses efeitos é uma vivência cotidiana atravessada pela violência. Os desfechos violentos ocorrem como pontos culminantes de tensões que vem se desencadeando no dia a dia. A suspeita de uma traição amorosa, as desconfianças de uns em relação a outros, imposição de regras de comportamento mal aceitas por um ou algum dos residentes, a irritação diante de uma criança que chora, são cenários que constroem oportunidades de confronto verbal violento que, vez ou outra, ultrapassa os limites do tolerável e culmina com a supressão física de alguém. O que surpreende nesses cenários é
a banalidade das mortes e agressões.
Impressionam as razões pelas quais se desencadeiam as agressões. Wânia
Pasinato Izumino, em seu livro “Justiça e violência contra a mulher” relata que, em geral, as agressões se desencadeiam em razão de acusações de infidelidade conjugal da vítima ou do agressor, nos casos em que as vítimas negam-se a manter relações sexuais com seus companheiros, casos em que as vítimas declaram sua intenção de pedir a separação judicial, quando se negam a uma reconciliação. Ocorrem também por questões banais como a vítima
ter deixado acabar o gás, não ter feito o jantar, por ter pedido dinheiro para comprar alimentos ou para pagar despesas da casa. Relata também que, nos depoimentos prestados por agressores na fase policial (em casos de lesões corporais e tentativa de homicídio), eles afirmam que não houve agressão e que a vítima se machucou sozinha em um acidente doméstico ou durante uma discussão, quando tentavam agredi-los. Ou então que não lembram o que aconteceu porque estavam bêbados e não sabem se houve ou não uma discussão e agressões. Costumam afirmar também que as lesões foram provocadas pela vítima, pois agiram em legítima defesa quando foram injustamente agredidos ou provocados.
Algumas vezes usam argumentos como a legítima defesa da honra, violenta emoção (caso em que haverá uma diminuição de pena) ou até negam a autoria.
Outra característica dos agressores é a apresentação de um ciúme obsessivo,
desencadeado por qualquer motivo. O ciúme mata -e muito- no Brasil. E o principal algoz é o próprio marido ou companheiro. Ou o ex, que não se conforma com o fim do romance. Estes homens desempenham papel de agressor, dominador e disciplinador da mulher, como se ela fosse uma propriedade, um objeto.
Na maior parte das agressões, os homens estão alcoolizados no momento em que elas ocorrem. Ele geralmente é uma pessoa insegura. A bebida desencadeia um alto grau de agressividade (que estava reprimida), descarregando em sua mulher suas incompetências e insatisfações. No meio sócio-profissional são inseguros e para suprir essa insegurança, impõe-se sobre a mulher. Para o psicólogo Fernando Acoste, o homem quer dominar para mostrar que é macho. Isso não é uma doença (como um grave transtorno mental), isso é uma questão cultural, ou seja, é uma “doença cultural coletiva” derivada de uma cultura patriarcal.
Nos casais onde a mulher sofre agressões, é característica a falta de diálogo. O
agressor não admite estar errado e impõe-se através da força física. Para Maria Angélica Fauné, “as raízes da violência são mais profundas e estão no machismo, que está arraigado na cultura centro-americana. Para o machismo a violência constitui um valor positivo, um componente central na construção da identidade masculina, cujos atributos são a dureza, força e agressividade.” Assim, para um indivíduo ter essa identidade, acaba impondo-se.
sobre sua mulher através de agressões.
Ele possui imaturidade emocional, afetiva, dificuldades de lidar com sua agressividade e com frustrações. Diante dessas situações agem através de atitudes infantis e primitivas,
utilizando-se da violência.
A vítima da violência doméstica quase sempre tem sua auto-estima deteriorada e uma forte dependência afetiva ou financeira. A maioria das mulheres pertencentes à classe social baixa não denunciam a violência por medo de não conseguirem prover o seu próprio sustento e o de seus filhos. Outras, embora muitas vezes sejam independentes economicamente, possuem uma dependência emocional e afetiva, sentem medo e vergonha de viverem “largadas”. Importante observar que a embora a violência doméstica ocorra desde as classe mais baixas até as classes mais altas, nestas ela é menos “divulgada”.
Para muitas delas, ainda hoje, o objetivo de vida é realizar um bom casamento, já que foram educadas para cumprirem o papel de mulher bem casada. Têm medo e vergonha de uma possível sanção moral, advinda da sociedade em razão de terem falhado, feito algo errado para o casamento não dar certo.
Muitas famílias educam suas filhas na aceitação de atitudes agressivas, em que a violência e os castigos fazem parte do cotidiano. A menina é educada como um elemento frágil e necessitado de proteção. Para Alzira Rufino, presidente da Casa de Cultura da Mulher negra, muitas mulheres vêem a avó e a mãe apanharem e acham que é normal apanhar. Há então, uma herança familiar de violência.
Isso pode influenciar na escolha de parceiros que usam a agressividade para solucionar problemas. Admiram o comportamento agressivo do parceiro na fase do namoro.
Acreditam que as atitudes agressivas deste com os outros, é uma forma de estar protegida por ele.
As mulheres pertencentes às classes média alta e alta não vão às delegacias para levar a “notitia criminis”, pois sentem vergonha da violência a que foram submetidas e não gostam de “expor” o que ocorre em seus lares. Nas classes mais altas os parceiros usam mais a violência psicológica do que a violência física sobre suas companheiras e esposas.
Quase todas as agressões registradas ocorreram quando o parceiro estava sob o efeito de bebidas alcoólicas. É corriqueiro o parceiro alcoolizado dirigir ofensas verbais contra sua parceira, usando palavras de baixo calão em razão de motivos fúteis e, após essa atitude, agredi-la fisicamente com tapas, socos e chutes. Muitos deles, dominados por um ciúme excessivo, insinuam que elas possuem amantes. As mulheres agredidas alegam que seus parceiros ingerem bebidas alcoólicas com freqüência e ficam muito violentos após a ingestão destas. A tensão contida por estes homens, “explode” quando eles bebem.
A maioria desses agressores possuem um trabalho, porém este muitas vezes não é fixo. As agredidas que vão à delegacia trabalham em serviços gerais, são domésticas ou então se intitulam “do lar”.
Grande parte das agressões físicas e verbais são levadas ao conhecimento da
Delegacia nos últimos 15 dias do mês. Isso ocorre em razão da falta de dinheiro. Nos primeiros 15 dias, a família ainda não gastou todo o salário recebido, ainda possui parte deste. Já nos últimos 15 dias, o salário, que geralmente é muito baixo, já se esgotou. Isso gera tensão e nervosismo no casal. Isso faz com que dirijam agressões verbais uns aos outros. Após estas, o parceiro, muito nervoso, acaba dirigindo também agressões físicas contra sua mulher, descarregando toda sua tensão nesta.
Portanto, o risco de uma mulher ser agredida em sua própria casa pelo pai de seus.
filhos, ex-marido ou atual companheiro é bem maior do que de sofrer alguma violência na rua, fora do âmbito familiar.
Pais negligentes, escola deficiente, escassas perspectivas de mobilidade social,
dificuldade de acesso à Justiça, falhas nas instituições policiais, desigualdade de rendas, desestruturação familiar e impunidade. Toda esta combinação explosiva de problemas políticos, econômicos e sociais contribuem para a violência.
Pacificamente organizada, a sociedade deve se juntar aos governantes para combater a violência e investir na melhoria das condições de vida de todos. Deve-se realizar a restauração dos valores éticos e morais, respeitar a dignidade humana e lutar por uma ressocialização e reeducação daqueles que foram levados ao crime. Para isso, deve haver políticas públicas de apoio e atendimento à família (a família tem que ter um projeto de vida, valores e dignidade para construir isso nos filhos), ou seja, investir na “prevenção” da violência.


publicado por araretamaumamulher às 12:23 | link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

Quarta-feira, 20.01.10
O que é a violência contra a mulher? “É qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada”. (DEFINIÇÃO DA CONVENÇÃO DE BELÉM DO PARÁ-1994).
O trabalho com a nova lei requer um olhar diferenciado para o que seja esta forma de violência. Existem papéis de gênero impostos à mulher na nossa sociedade, oriundos da hegemonia do poder masculino sobre a mesma de tal forma engendrados por essa ideologia, e tão eficazmente arquitetado, que resultou em um controle naturalmente aceito pelo próprio oprimido, ou seja, a mulher, que incorporou seu papel secundário na sociedade reforçando, ela mesma, a opressão.
No sistema em que vivemos há séculos, a mulher é vítima de uma crueldade constante. Não se questiona a violência em si, à agressão, o delito, e sim o gesto de disciplina familiar que foi quebrado pela mulher de alguma maneira, que não “cumpriu“ seu papel dentro da família. Dentro deste contexto, a agressão física ou psicológica é minimizada, sendo o enfoque maior a correção da mulher, para que ela não mais transgrida estas convenções.
A LMP, demanda uma mudança radical nos valores sociais dos operadores do direito, ao menos daqueles que irão trabalhar com ela. É necessária uma expansão na própria consciência, no sentido de quebrar paradigmas seculares e por demais arraigados dentro da nossa sociedade. Os que com ela vão labutar não podem olvidar-se do PANO DE FUNDO DO PATRIARCADO, espectro que paira sutilmente sobre a mente de todos os que fazem parte do sistema global. O conceito de família necessita ser redefinido. A família, como nós conhecemos, é uma estrutura hierarquicamente construída pelos valores masculinos e assim, nós inconscientemente estamos defendendo estes mesmos valores que nos oprimem. Todas as legislações do mundo rejeitaram os direitos individuais da mulher.
Os operadores do direito precisam compreender as vítimas da violência doméstica, para melhor poderem tratar de seus casos e resolver suas necessidades de forma mais adequada, com a sensibilidade que a situação requer. Sem esta compreensão do estado emocional da vítima, como também dos riscos a que está sujeita os juizes e demais operadores do direito podem frustrar as expectativas da mesma.
Sou contrária, por tais razões, àqueles que questionam a constitucionalidade da lei alegando ofensa ao princípio da isonomia, por tratar de forma diferenciada o homem e a mulher criando uma desigualdade familiar, porque me parece que essa alegada igualdade apenas encontra respaldo no maravilhoso ideal da nossa Constituição Cidadã, que não resta dúvida é um desejo de todos nós.
Infelizmente, materialmente falando, o que a realidade nos traz, são estatísticas alarmantes de verdadeiras atrocidades e barbáries perpetradas contra a mulher e consequentemente seus dependentes. A tão proclamada unidade familiar, instituição fortemente protegida pelo sistema oficial, na verdade raramente existiu, pelo contrário. É ali que o homem exerce seu poder de forma mais arbitrária. As políticas públicas, a pretexto de preservarem a qualquer custo “a unidade familiar” têm, na verdade, escamoteado as relações hierarquizadas e desiguais no âmago da família. Dados da OMS - Organização Mundial de Saúde, insertos no relatório divulgado pela Anistia Internacional, de 05. 03. 2004 apontam que 70% dos assassinatos de mulheres no mundo são cometidos por homens com quem elas tinham ou tiveram algum envolvimento amoroso. Todas as pesquisas demonstram que o lar, na maioria dos casos, constitui-se local de risco para mulheres vítimas de violência doméstica. Um estudo estimou que a cada 15 segundos uma mulher seja espancada por um homem no Brasil.
Então, de qual tipo de igualdade estamos falando? Da real ou da virtual?
Em recente e brilhante decisão o ministro Carlos Ayres Britto do STF, julgou ação impetrada pelo DEM (ex-PFL) e a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino, sustentando a inconstitucionalidade dos atos que criaram o Pro uni, alegando violação ao princípio da igualdade entre os cidadãos. O ministro julgou improcedente o pedido baseando-se nos fatos e não no ideal Constitucional. Diz o Eminente Magistrado: “não há outro modo de concretizar o valor constitucional da igualdade senão pelo decidido combate aos fatores reais de desigualdade. (...) É como dizer: a lei existe para, diante dessa ou daquela desigual ação que se revele densamente perturbadora da harmonia ou do equilíbrio social, impor outra desigual ação compensatória”. Ou seja, diante da flagrante desigualdade não se pode falar em igualdade. Ainda em seu voto o Ministro se reporta à Oração aos Moços de Rui Barbosa: “A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. (...) Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real”. Por analogia, acredito que o entendimento do Ministro, seguirá o mesmo caminho, quando da apreciação sobre a constitucionalidade da lei em comento.
A LMP surgiu de antigas exigências de Tratados Internacionais ratificados pelo Brasil, que se destinam à eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher tendo o Estado Brasileiro ratificado o referido documento em 1984, fruto de anos de lutas dos movimentos feministas nacionais e internacionais. Sem falar que a lei 11.340/06 foi resultado de uma condenação do Estado Brasileiro pelos Organismos internacionais por não estar cumprindo com os compromissos assumidos. Assim a Lei se constitui em um mecanismo de discriminação positiva ou de ações afirmativas, capaz de reduzir a tragédia da violência de gênero, sendo esse o seu fim.
Antes, a proteção à mulher, dada pela justiça criminal, produzia uma sensação generalizada de injustiça, por parte das vítimas, e de impunidade, por parte dos agressores, incentivando novas condutas criminais, bem como a reincidência.
A lei Maria da Penha em seu art. 13 conferiu as Varas Especializadas em Violência Doméstica e Familiar contra a mulher, competência múltipla nas áreas de atuação civil e criminal, bem como para conhecer e julgar as ações civis públicas que disserem respeito ao implemento ou melhoramento de políticas públicas para as vítimas, seus dependentes e agressores. Não existe nenhuma possibilidade das medidas protetivas de urgência, se meramente de natureza civil, serem encaminhadas ao juízo cível após sua satisfação, uma vez que o art. 13 supracitado é claro em relação ao processo, julgamento e a execução das causas decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher. A competência é híbrida, exatamente por ser a Lei Maria da Penha uma lei extravagante, principalmente por seu caráter emergencial, que o legislador em medida inédita buscou facilitar a vida da mulher, de modo que apenas um juiz atenderá o caso em toda sua extensão, aplicando penalidade ao agressor no processo penal, decretando o divórcio, separação, indenização e outros no processo, despachando no prazo legal as medidas cautelares de proteção urgentes que forem solicitadas pela vitima, etc. A única exceção se encontra nos crimes dolosos contra vida, que por sua competência constitucional, depois de terminada a fase da instrução na Vara Especializada, devem os autos ser remetidos ao juízo competente.
Este é o entendimento da MM Juíza de Direito Amini Haddad Campos, em seu livro “Direitos Humanos das Mulheres”, Juíza da 1ª Vara Especializada de Violência contra a mulher no Brasil, que vem aplicando a Lei LMP de maneira exemplar, uma vez que, por sua grande sensibilidade e cultura, entende a profundidade e amplitude requerida na aplicação da mesma, à luz dos princípios gerais de direito e garantias constitucionais, com o qual corroboro em todos os sentidos.
A ilustre magistrada completa o seu entendimento, interpretando corretamente o artigo supramencionado, ao dizer que: “acabaram-se os conflitos entre decisões cíveis e criminais nesta área específica. Havendo processo por delito de violência doméstica, o Juízo especializado passará a ser competente para análise e julgamento de possíveis ações cíveis de caráter familiar envolvendo as partes, como ações de guarda, alimentos e separação anteriormente ajuizadas nas varas de família, que aos juizes especializados devem ser encaminhados, quando solicitados”. Ressalva apenas que é a ocorrência do delito de violência doméstica e familiar que atrai de maneira irreversível os juízos especializados, evitando que a vítima peregrine em inúmeros juízos em busca dos seus direitos. Perfeito entendimento, uma vez que se assim não fosse, retrocederíamos ao juízo comum, perdendo a lei o seu objeto que é a salvaguarda da mulher vítima de violência, e voltaríamos ao status quo do sistema social, fazendo de novo, a mulher responsável pela violência que sofreu.
A figura da audiência de justificação imaginada por alguns magistrados é impensável na sistemática da LMP, amparado pelo mesmo argumento acima citado. O art. 12 da lei, elenca os procedimentos que a autoridade policial deve tomar nos casos de violência doméstica. O inciso III, determina que o delegado no prazo de 48h, remeta EXPEDIENTE apartado ao juiz com o pedido da ofendida, para concessão de medidas protetivas de urgência. Não faz nenhuma menção da necessidade de investigação em curso para comprovar a existência de crime. Pelo contrário, é aí que se faz a grande diferenciação no tratamento dado às mulheres vítimas de violência pela Lei 11.340/06. ELA NÃO PRECISA MAIS EXPLICAR OU JUSTIFICAR PORQUE FOI AGREDIDA. As medidas protetivas dada à urgência da pretensão, devem ser apreciadas de plano, independentemente de contraditório ou designação de audiência para a oitiva da parte, (nunca justificação) sendo que tal oitiva poderá ser feita, mas apenas em casos excepcionais, havendo, segundo os princípios e diretrizes desta lei, uma espécie de inversão do ônus probante, vez que é mais prudente para o julgador atender à solicitação da vítima, que poderá ser revogada ou modificada a qualquer tempo, do que correr o risco de ao indeferir o pleito, colocar a mulher em risco ou suprimir-lhe direitos que, por serem elementares, mereceriam uma tutela jurisdicional a contento.
A LMP não foi criada para atender as necessidades do Estado e sim para socorrer a mulher em situação de violência. A lei proporciona através das redes multidisciplinares, a elevação da auto-estima da mulher em condição de violência.
“A violência doméstica e familiar contra a mulher constitui uma das formas de violação dos direitos humanos.” (Art. 6º da LMP)

Márcia Nunes Lisboa.


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