Domingo, 28.03.10

No filme Tudo Sobre Minha Mãe, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, ilustra bem a idéia do sujeito que deseja mudar sua aparência para ficar cada vez mais único, de acordo com o que queria parecer. Assim, o personagem do filme, um transexual chamado Agrado, que já havia realizado inúmeras intervenções plásticas, dizia: Uma pessoa pode se dizer mais autêntica quanto mais se aproxima de como sonhou ser.
Mas com o que sonha grande parte das mulheres em nossos tempos? A gordura acabou com minha vida, dizia uma entrevistada, em uma matéria da Folha de S. Paulo. Cadernos de saúde, academias de ginástica, lojinhas de produtos naturais e cirurgias plásticas cada vez mais numerosas, parecem nos dizer que a moda do corpo magro, esbelto, sarado e cuidado chegou para ficar.
Mais ainda –, ai de quem desses parâmetros se afastar!!! Em recentes pesquisas que vimos realizando e cujas falas reproduziremos ao longo deste trabalho, pudemos observar, não apenas o caráter impositivo de uma estética que nada tem a ver com o biótipo brasileiro, como o profundo preconceito que as mulheres feias (leia-se gordas) sofrem.
Sem caráter, sem força de vontade e vistas como desleixadas, a anatomia feminina deixou de ser um destino para ser uma questão de disciplina: se não conseguimos agenciar nossos corpos, como seremos capazes de agenciar nossas vidas ou nossos empregos? Recente pesquisa feita pelo New York Times aponta para uma enorme diferença salarial (quando são contratadas!) entre mulheres bonitas e feias.
moralização do corpo feminino, como aponta Baudrillard em seu livro A sociedade de consumo, nos leva a encarar a ditadura da beleza, da magreza e da saúde como se fosse algo da ordem de uma escolha pessoal. Deixam-se de lado todos os mecanismos de regulação social presentes em nossa sociedade, que transformam o corpo, cada vez mais, em uma prisão ou em um inimigo a ser constantemente domado.
Malhado, como se malha o ferro, não é sem razão que tal expressão é utilizada nas academias de ginástica, na tentativa de adquirir a estética desejada. Tais técnicas, apreendidas, inicialmente, como uma disciplina, com o passar do tempo são incorporadas ao cotidiano do sujeito e sem que o mesmo perceba, acaba por reproduzi-las, sem que haja uma dimensão crítica ou reflexiva sobre essas atividades/comportamentos: a Pastoral do suor de que nos fala Jean-Jacques Courtine.
Se a contemporaneidade pode ser definida exatamente pela sua liquidez, como aponta ZygmuntBaumann em vários de seus escritos, ou pela sua evanescência – tudo que é sólido desmancha no ar, o culto ao corpo, demanda do sujeito exatamente o inverso – permanência e imutabilidade.
Como sabemos, a regulação social dos padrões estéticos sofreu variações históricas em torno dos ideais de beleza de algumas décadas atrás, até à atualidade, no qual seu imperativo exige a perfeição das formas conseguida por meio de inúmeras intervenções corporais e cujo exemplo mais representativo são as modelos e atrizes.
Todo esse percurso histórico deixa bastante clara a ênfase que vem sendo dada, cada vez mais, às práticas de culto ao corpo, bem como às técnicas de aperfeiçoamento da imagem corporal. As interferências, transformações e todos os métodos de disciplinização do corpo, acompanhados da moralização da beleza, buscam esse caráter de permanência do belo corporal.
Trata-se dessa forma, de comer com a disciplina imposta pela nutricionista e, num segundo momento, anular os efeitos da ingestão, através de rigorosos exercícios físicos. Carregado de um sentimento de culpa infalível, fruto das advertências de ambos profissionais, nas quais comer não deve ser, senão, o ato de alimentar-se, destitui-se, dessa forma, a alimentação de toda a sua dimensão de prazer, fazendo com que o sujeito acredite que deva alimentar-se do olhar que equivale à aprovação social e que, por conseqüência, legitima e estimula tais práticas na obtenção desse corpo.
O que é ser bela? Acho que a sociedade nos cobra e nos sufoca demais com isso. Gostaria de dar menos valor à aparência, mas não consigo, pois vivo num mundo onde os valores estão em segundo plano e o físico em primeiro. Se eu quiser conquistar algo aqui neste mundo, sem dúvida nenhuma, a minha aparência influenciará 90%. É triste, mas é a mais pura verdade, pois comprovei isso na pele – precisei me livrar de todo o meu recheio.
As técnicas de reversão do processo de envelhecimento nos remetem ao tão sonhado projeto evolucionista do corpo. Atingida a sua maturidade, o corpo estaria livre de todas as enfermidades e intempéries – , o corpo anseia por não mais fenecer. A tentativa pós-moderna parece ser a subversão da condição humana de mortal.
Não se trata, certamente, de negar os avanços da ciência e, sim, de estar atento à dimensão de controle e regulação de nossos corpos. Como jocosamente aponta Ximenes Braga no jornal O GloboMundo afora, o estado quer controlar cada vez mais o que as pessoas fazem consigo mesma, e impedir crianças de engordar é mais um degrau de ridículo nesse Zeitgeist. Qual o próximo passoA criminalização da aspirina, do sushi e do steak tartar?
Mas retornemos à nossa afirmação acerca do preconceito contra a gordura – estando aí incluído até a gravidez.
Historicamente, à mulher é associado o binômio beleza e fertilidade, estando o último aspecto referido a tudo que difere a sua anatomia da masculina, ou seja, aquilo que em suas entranhas é produzido. Entretanto, a cultura atual parece demonstrar que nem mesmo a gravidez justifica as marcas de envelhecimento deixadas pela natureza, logo, os traços remanescentes do processo da maternidade devem ser extirpados do corpo feminino.
Ressignificados e afastados do ideal de juventude, esses traços são interpretados pela cultura como feios e, portanto, devem ser eliminados, reiterando mais uma vez a máxima de que só é feio quem quer. Nesse sentido, vale lembrar a propaganda da linha de cosméticos Helena Rubinstein: Nos tempos atuais, é imperdoável que a gravidez faça com que a mulher perca a sua silhueta… A mulher deve ter um belo corpo para mostrar após os filhos estarem criados.
O fenômeno observado, tal qual descrito, parece indicar um corpo análogo ao corpo andrógino referido por Baudrillard, no qual houve o apagamento dos signos de diferença. Não é à toa, que a maioria de nossas entrevistadas associa a necessidade da cirurgia à gravidez e aos processos ulteriores de maternagem, como a amamentação, e justificam seu desejo de anulação dessas marcas dizendo tratar-se de um excesso desnecessário. Ironicamente, a amamentação é o exemplo prototípico de um excesso interno do corpo feminino que produz a satisfação do bebê.
Depois da gravidez mudou tudo... os peitos desabaram. Já ouviu falar nas termas de Caracalla?
Não adianta, porque quando você engravida as marcas estão lá mesmo – então por que não consertar?
De que corpos, então, estão falando essas mulheres? Será um corpo sem marcas ou inscrições: um corpo em branco? Quem ou o que contaria então a sua história? Será ousado pensar tratar-se da valorização de um corpo oco? Como um corpo virtual, que só possui duas dimensões, aquelas que os olhos alcançam. Ou ainda, como o corpo publicitário: para sempre diante do seu olhar!
Freqüentemente associado ao corpo que “atrai”, a cirurgia é buscada como uma forma de se manter atraente aos olhos do outro. Permanecer jovem, seduzir, manter o interesse do companheiro são justificativas muitas vezes empregadas. Não é de se espantar que muitas vezes ninguém possa tocar esse corpo. Ele está/existe apenas para a visão, ou seja, para ser admirado – os seios Pão de Açúcar nas palavras de uma entrevistada.
Frases que são proferidas com o intuito de estimular ou mesmo reforçar positivamente as pessoas gordas a persistirem com dietas e/ou rotina de exercícios, ilustram bem a idéia do corpo magro como um ideal a ser atingido, bem como a representação social do gordo como um imperfeito que deve ser reeducado, de forma eficiente à moralização do bom comportamento. Neste sentido, nada espelha melhor a moral do culto ao corpo do que a disciplina, a perseverança e a obstinação.
Vejamos alguns exemplos ouvidos em academias: vai gordinha que você chega ou, no caso de demonstração de cansaço, o seu corpo é um reflexo do seu comportamento – se for paradona, preguiçosa do tipo que só gosta de comer e dormir, fatalmente será gorda, caidaça e toda flácida. (fala de um personal trainer).
Finalmente, um dos relatos que melhor afirma a idéia da exclusão social infligida às mulheres gordas - a negação da sexualidade:
Um amigo meu uma vez me disse: se quiser ser desejada emagreça, pois é óbvio que ninguém vai olhar para gordinha “cocota” e sim para a saradona “cascuda”.
Parece que a fala do amigo diz à nossa entrevistada que ela é menos mulher por ser gorda, logo, feia. Ser gorda lança-a na condição de apenas amiga dos homens, ou seja, só as magras podem exercer sua feminilidade plenamente, pois conseguem despertar o desejo dos “carinhas”. Feiúra é índice de menos-ser.
Contudo, não se trata como alguns colegas apontam, de reduzir a busca por um corpo ideal, a uma falha, uma falta, um defeito, uma patologia ou um processo de alienação. Trata-se, a nosso ver, de poder pensar por quais processos discursivos e de socialização estas e outras práticas fortemente instituídas e difundidas colaboraram para anular as resistências ao que nelas existe de opressão.
É preciso pensar na forma pela qual os agentes interiorizam/incorporam o discurso dominante e na sua conseqüente reprodução no seio da sociedade. É importante notar que os mecanismos que regem a dinâmica das relações, tais como sujeição e dominação, obediência e imposição, não devem ser encarados como algo que vem de cima para baixo, e sim como um processo dialético, horizontal, encenado por todos os membros de uma sociedade, assimilado como uma tática inerente ao jogo, e que permeia todos os âmbitos e espaços indo da família à escola, dos locais de trabalho às instituições públicas, retornando ao convívio social.
Por isso, torna-se fundamental refletir acerca da sociedade de imagens na qual vivemos. O corpo, ao entrar em cena, e ocupar agora um espaço que dá ao indivíduo a visibilidade necessária aos poderes disciplinares, torna-se o principal alvo das estratégias de controle. Por essa mesma razão ele deve ser pensado e visto como uma possibilidade de resistência.
Este mundo é feito para os magros, jovens, brancos, caucasianos e sem nenhum tipo de deficiência física. Quem não pertencer a um desses grupos, com certeza ficará à margem sofrendo inúmeros preconceitos.
Joana V. Novaes é doutora em psicologia clínica. Coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social – Lipis da PUC-Rio. E-mail joananovaes@terra.com.br.
Junia de Vilhena é doutora em psicologia clínica, é psicanalista, professora do Departamento de Psicologia da PUC-Rio; coordenadora do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social – Lipis da PUC-Rio e pesquisadora da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental. E-mail vilhena@psi.puc-rio.br



publicado por araretamaumamulher às 19:53 | link do post | comentar | favorito

Sábado, 27.03.10

envelhecer é ficar fora de foco:
os traços vão ficando imprecisos
e o contorno do rosto acaba por se decompor
como um pedaço de pão a se dissolver na água.
O que tem sido narrado acerca da velhice e com que olhar? Nosso mundo atual privilegia a imagem exterior e o belo quase sempre está associado à juventude. Pensar sobre a velhice, no aspecto físico do ser, requer pensar também a respeito do olhar, pois as dificuldades encontradas pelos idosos para se relacionarem com o outro, a partir da degradação do corpo, ocorrem principalmente por causa do olhar contaminado pelo preconceito. Quando se trata do envelhecimento do corpo feminino, há ainda mais rigor desse olhar e a sexualidade da mulher velha é geralmente vista como inexistente ou inadequada. Nos contos “Ruído de passos” e “Mas vai chover”, Clarice Lispector trata da sexualidade e expõe uma face da velhice que não costuma ser discutida, especialmente quando se trata do desejo feminino. Essa exposição de um drama íntimo sob forma de literatura permite-nos refletir sobre o tema visto com preconceito pela sociedade, e observar sua forma de representação.
A mulher velha é tida como alguém que não mais sente desejo e, se sente, não é vista como alguém digna de tê-lo satisfeito. Nossa sociedade é centrada na beleza do que é jovem, principalmente no que diz respeito à mulher. Há um forte estigma que desvaloriza a mulher mais velha. Normalmente a vida sexual de uma mulher mais velha é alvo de chacotas, comentários, especialmente quando se trata de um relacionamento com homem mais jovem. Essa é a temática discutida no conto “Mas vai chover”; e a questão do desejo sexual que persiste em uma velhinha de oitenta e um anos, Cândida Raposo, é apresentada em “Ruído de passos”. No primeiro, a exploração e o desrespeito do jovem com quem Maria Angélica, de sessenta anos se relaciona apaixonadamente é o foco da discussão; no segundo conto, a voz narrativa apresenta-nos a angústia de quem vive o “inferno” do “desejo de prazer” sem poder satisfazê-lo, da superação da vergonha em confessar isso ao médico a quem pede ajuda, para libertar-se desse martírio.
Em ambos, as mulheres precisam vencer o preconceito da idade para ter esse desejo sexual e satisfazê-lo, seja de modo solitário ou ‘negociado’ com um jovem. Num a personagem velha teve a coragem de crer no amor do jovem por ela e atirou-se a essa relação; noutro, a velhinha teve a coragem de expor sua angústia e permitiu-se resolver-se. Nesse, a memória é elemento desencadeador do processo de libertação do corpo para o prazer, ao trazer para o cenário de sua atuação solitária o “ruído de passos” de seu marido.
A temática do corpo degradado surge freqüentemente em narrativas do envelhecer, porém, como forma de resistência, não só trazendo a discussão da decrepitude como impossibilidade de comunicar-se ou de agir, mas também como novos modos de estar no mundo.
A modificação ocorrida no corpo desencadeia processos de mudança nas formas de se estar nos espaços, de perceber-se nessa nova condição, de se posicionar frente às circunstâncias e frente ao outro. Assim, encontra-se a questão da degradação do corpo unida à recuperação do mesmo pela memória, nos textos “Significado oculto de um corpo velho”, conto da escritora portuguesa Maria Isabel Barreno, e A obscena senhora D, romance de Hilda Hilst, nos quais as personagens apresentam postura diferente diante do olhar do outro, como que para recuperar uma dignidade desse corpo, para chocar o outro e “fazer ver” de outra forma as marcas impressas pelo tempo no corpo velho.
Há narrativas que apontam o olhar do outro vendo de fora o seu diferente, porém narram também o estranhamento não só desse que olha de fora, mas o daquele que se estranha. No conto “Significado de um corpo velho”, a literatura faz-se tradutora das inscrições do corpo envelhecido. Assim como a velhinha protagonista, ao relembrar seu corpo jovem, a narrativa percorre o velho corpo marcado e sua estrutura desgastada pelo tempo. A voz narrativa trabalha a linguagem como se fossem fios reconstituindo a dignidade de um corpo que, antes da decrepitude, sustentara todos os labores de uma vida; refere-se ao corpo velho como um rico texto a ser lido: “seu corpo era um texto vivo, a narrativa de uma vida que ela tinha de honrar”.
O olhar do rapaz sobre ela a faz reportar-se a si própria, como se estivesse frente a um espelho. O seu olhar sobre o jovem corpo do rapaz remete-a a um passado, o do seu próprio corpo jovem. Sua pele, seus ossos e seus músculos são tema da invocação de uma memória impressa na carne, de uma memória impressa na pele: “pensou nos ossos doridos (...) Doridos sim, mas por há tanto tempo lhe servirem e modelarem a postura, fielmente. Amou-os e agradeceu-lhes” (SOCV, 71-76).
O encontro com o rapaz, inicialmente afronta-lhe a velhice, com seu corpo forte, ágil, jovem. Depois, provoca-lhe essa reflexão sobre o quanto já estivera nessa condição jovem e o quanto já fizera ao longo da vida com esse corpo que envelhecera, porém não o encara como uma ruína e sim como uma obra esculpida pelo tempo, redesenhada ao longo dos anos vividos, através de seu trabalho, da fatura de tudo o que fizera com as próprias mãos. Ao compreender isso ela se sente melhor: “deixou de ser apenas sua habitante; saiu e olhou-se de fora”, descobre que possui o “olhar que renovava sua configuração”.
Deste modo, a velha senhora re-significa os sinais de velhice em seu corpo. Ela passa a encarar o corpo debilitado não como algo fracassado, inútil, mas como “escultura” viva, cujas marcas impressas inscrevem a história de uma vida, não apenas marcas de dor e sofrimento, mas também resíduos de prazer e alegrias. Cada ruga conta a história de um pedaço de sua vida, dor ou prazer, tristeza ou alegria, mas vida.
A partir dessas emoções, a velhinha acumula toda sua energia para expressar essa nova perspectiva de si num gesto, tocar a mão no ombro do jovem rapaz. Ao sorrir para ele sem dentes, escancaradamente e sem vergonha de sua gargalhada senil, a velhinha horroriza o jovem, “que curiosidade e fascínio lera nos olhos do rapaz do leite; que perplexidade tão absolutamente muda a do jovem macho face à velha fêmea quantas passagens secretas apontadas nesse território de mudez”. Essa senhora compreende sua força, seu poder feminino nas mais diversas faces, da mãe à bruxa, além de deter o conhecimento de “sabedorias únicas”. Por isso consegue superar a baixa estima, encara o jovem sem pudor e passa a amar-se.
O romance A obscena senhora D dá-se por meio de uma narrativa desenfreada de
Hillé, numa mistura de invocação a deus, lamento e narrativa de memórias. Ela é narradora tanto de uma vida de indagações quanto de indagações de uma vida, assim, narra em primeira e em terceira pessoa, mesclando outras vozes de fora, na mesma narrativa; ela é a protagonista de sua história e da de outros, ela mesma é muitas. Hillé conta sua história que é também a história do outro, olha de dentro e olha de fora para entender a vida para saber da morte, é como a figura do “recordador” de que fala Ecléa Bosi, pois “o velho narrador revivendo, está aprendendo a morrer”. Hillé não agüenta a vida, foge para um mundo seu, isola-se de todos, até do marido quando vivo criando seu mundo embaixo da escada. Hillé narra uma experiência profunda – “naquele momento em que ela se corporifica (e se enrijece) na narrativa” pode haver a perda de sua história, porém “o mutismo também petrifica a lembrança que se paralisa e sedimenta no fundo da garganta como disse Ungaretti”iv. Deste modo, é preciso narrar. Esse é o movimento da personagem, narrar para não petrificar a lembrança, lembrar para compreender, entender para poder morrer. Como morrer sem ter entendido a vida? Essa é a grande inquietação da personagem, que ecoa também em outra narrativa da mesma autora, Estar sendo. Ter sido, cujo personagem principal é amigo de Hillé e chega a explicitar essa questão.
Em OSD aborda-se decrepitude do corpo, isolamento, impossibilidade de comunicação, na medida em que a protagonista Hillé recusa-se a relacionar-se com os outros de forma convencional –, o abandono e o estranhamento dessa mulher envelhecida e solitária, vista pelos vizinhos como bruxa, como louca, temida por eles, todos esses temas são elementos construtores da personagem também denominada Senhora D, de derrelição, de desamparo. Estes constituem também o texto, na medida em que são temas recorrentes da reflexão da narradora personagem.
No entanto, A Senhora D recusa-se às formas convencionais de encontro. Está em conflito consigo, com os outros, com o seu deus, Ehud, a quem questiona sobre tudo. Vive em busca de repostas, da razão. Representa a falta de viço em sua vida com o gesto de substituir seus dois peixes mortos por peixes de papel pardo, que recorta e coloca no aquário, periodicamente.
Segundo Merleau-Ponty “o sensível não é feito somente de coisas. É feito também de tudo o que nelas se desenha, mesmo no oco dos intervalos, tudo o que nelas deixa vestígio, tudo o que nelas figura, mesmo a título de distância e como uma certa ausência”vi. A personagem materializa o desenho das coisas substituindo a própria coisa por sua representação ao trocar os peixes por recortes de papel em forma de peixe.
Hillé invoca a memória do que fora, denotando a dificuldade em aceitar a degradação do corpo pelo envelhecimento: “Ter sido e não poder esquecer. Ter sido e não mais lembrar”. “Ser e perder-se” (OSD, 76). O que ela é no presente figura no texto como mera representação do que fora no passado, assim como seus peixes de papel, pardo e sem vida como ela se sente, apenas um reflexo da existência em outros tempos: “tendo visto, tendo sido quem fui, sou esta agora? Como foi possível ter sido Hillé, vasta, afundando os dedos na matéria do mundo, e tendo sido perder essa que era, e ser hoje quem é?” (OSD, 24). A personagem indaga-se sobre a vida, pensa-a falando dos dejetos, das excrescências, dos detritos, do lixo. Reflete acerca do corpo, por dentro e por fora, indaga sobre a vida a partir dele: “a vida foi isso de sentir o corpo, contorno, vísceras, respirar, ver, mas nunca compreender” (OSD,53). A narradora fala de gosma e putrefação; de tudo o que envolve a carne, que chama de barro; da vida, partindo da matéria, perecível e frágil, para poder narrar a realidade humana, para poder dizer do fio tênue que liga o corpo à vida e, a vida à morte.
Porém, a personagem traz uma nova perspectiva, a da possibilidade de renovação, já que troca os peixes que recorta toda semana, pois estes se deterioram facilmente. Assim como ela, que troca de máscaras para poder ser sempre outra. Hillé pode ser muitas e seus peixes podem ser outros.
O jogo de ausência e presença, do visível e do invisível é representado dentro da narrativa em perspectiva, pois a protagonista faz a representação da representação com a ausência dos peixes, trocados por outros de papel, e representa a própria ausência ao mascarar-se, ao ser outra. Hillé ausenta-se estando presente, “a própria ausência está enraizada na presença”, diz Merleau-Ponty e “as ‘negatividades’ também contam no mundo sensível”. Hillé é tão lúcida, tão presente neste mundo, que se permite o devaneio, a loucura, a ausência de si, pelo menos no olhar dos outros sobre ela. Essa é sua forma de estar no mundo, ausentando-se dentro de uma presença marcante.
A relação da personagem com os outros dá-se por uma janela. De fora, vêem-na como um bicho, como uma louca. Ela, por sua vez, constrói a imagem pela qual quer ser vista. Prepara máscaras horripilantes e coloca-as em seu rosto antes de abrir a janela: “olhar é, ao mesmo tempo, sair de si e trazer o mundo para dentro de si”. Ao ser visitada, repele as pessoas que tentam aproximar-se dela, mostrando sua nudez senil. A narrativa deixa claro que a repulsa dos outros por sua nudez é, na verdade, pelo corpo degradado, é a recusa em ver o corpo envelhecido. A imoralidade está na velhice do corpo.
Nesse sentido, pode-se aproximar a postura de Hillé e a da velhinha do conto de Barreno, analisado há pouco, em que ambas as personagens chocam o outro pela exposição escancarada do corpo velho. Além disso, as duas desafiam pelo olhar as formas de ver do outro, na medida em que apresentam-lhe a face. Uma apresenta-se mascarada, a outra, desmascarada. Hillé cobre o rosto velho com máscaras horripilantes, a velhinha de Barreno, abre um sorriso desdentado, que normalmente é escondido do olhar alheio. Hillé quer espantar os outros com as caretas que coloca no lugar de seu rosto, desfigurado pelas marcas do envelhecimento, “o que é visto se impõe ao espectador com força suficiente como para determiná-lo ao sabor da sua percepção”ix. A personagem substitui o horror do que ela vê em si, espantada pela velhice, pelo que pode ser um espanto para o olho do outro, mascarando-se e escondendo o rosto, que é a face normalmente exposta ao olhar alheio. Ao mesmo tempo, revela sua intimidade e o que sempre fica escondido é exposto.
Assim, Hillé apresenta-se aos olhos dos outros tal como um fenômeno artístico, já que intencionalmente causa estranhamento ao desnudar-se ou ao mostrar-se com caretas e focinhos, grunhindo, pois a personagem remove um procedimento “do âmbito da percepção automatizada”.
Deste modo, já que a visão constitui “o laço vivo entre nós e o mundo, entre nós e os outros”, Hillé, exterioriza e estende seu questionamento a respeito do mundo ao escandalizar o outro, ao desestabilizar as relações primeiro dentro dela, depois dentro de casa, e no mundo, ao abrir a janela e mostrar-se chocante: “o olhar tem a capacidade de pôr em questão toda realidade”. Assim, a aparição horrenda de Hillé instiga-nos a pensar sobre o olhar que não consiste apenas em “ver e ser visto (e este é o fracasso do olhar contemporâneo, a condição trágica do homem moderno que só pensa no ver e no ser visto)”, pois olhar quer e pode ser mais que isto, ele pode fazer ver além do visível.
Assim como Hillé desafia o olhar do outro, duas personagens também o fazem, porém com teor diferente. A sexualidade, o desejo e o despojamento da vergonha de ser velha, expressos por atitudes, ao exibir um olhar quente e escancarar um sorriso desdentado sem nenhum pudor, a velhinha frente ao jovem leiteiro; ou ao relacionar-se sexualmente com o jovem entregador da farmácia, Maria Angélica; ou ao abrir a janela para ser vista com máscara horripilantes ou levantar a saia para mostrar o que geralmente se esconde, a Senhora D, a figura da derrelição, essas mulheres “mais vividas” querem mostrar outras possibilidades de ser e de estar no mundo, antes de deixá-lo.
Ver a juventude do outro, estampada em seu rosto, denotada em seu corpo é um tapa na cara, tal qual o que se pode sentir revendo fotografias da juventude, quando se entra em idade avançada. É a memória que aciona esse lembrar do que se foi. A consciência dos limites e da degeneração que a velhice traz causam a sensação de impossibilidade de voltar a ser. Hillé escancara a velhice aos olhos do leitor, narra poeticamente a vida, crua, e aponta para a morte, mas não antes de ter compreendido a vida, não como único caminho. Ela tem medo, mas às vezes acha morrer única saída para essa vida difícil de agüentar, mas não desiste de entendê-la, de buscar novas formas de ver e de ser vista. Vive a interrogar-se sobre o sentido da vida e isso é dado ao leitor pela voz narrativa, que costura presente e passado da história da narradora personagem, apresentando seus questionamentos via memória de diálogos com Ehud, mescladas às suas interrogações a deus.
Deste modo, fica evidente a memória como ponto de apoio central daquele que envelhece. A partir desta dão-se as relações dos idosos com os outros e com o mundo, ou essas relações os remetem a ela. É por meio da memória do que se foi ou se possuiu que se tem a consciência das faltas atuais, das ausências, das deficiências, do que não se é mais, daquilo que não mais se tem. E a constatação dessas diferenças dá-se principalmente no corpo.
A Senhora D sabe que sua obscenidade está na velhice, no estar degradado de seu corpo, e mostrá-lo é um ato obsceno, envelhecer é obsceno em uma sociedade que valoriza o novo e o que se vê, e que só acha belo o jovem, que cria espaços para este, esquecendo-se de adaptá-los também para os idosos, propiciando-lhes a continuidade de um viver por si, com prazer e alegria, e que, principalmente, os veja de outro modo, como seres com vida, com possibilidades para além, abrindo perspectivas para que se sintam assim.
O mundo oferece muitas possibilidades para serem vividas com o corpo jovem, que pode estar-nos mais variados espaços e de modos diferentes. Para o corpo velho, os espaços são restritos, por seus limites. Alarga-se então o espaço da memória. Esta assume caráter fundamental na vida dos idosos, que têm muito que lembrar e resgatam suas vidas pela lembrança de um tempo em que era o que a sociedade valoriza, recuperando, por instantes, sua “importância neste mundo”.



publicado por araretamaumamulher às 18:21 | link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 26.03.10

A mulher, com o término de sua capacidade reprodutiva, configurada pela menopausa, tende a se perceber entre dois momentos socialmente antagônicos: a juventude e a velhice. No entanto, se a jovem é exaltada, a mulher idosa, parafraseando Simone de Beauvoir, é sempre a outra. Pode-se perceber que mitos e preconceitos sobre as mudanças enfrentadas pela mulher que envelhece continuam presentes em nossa sociedade. No Brasil, parece ser precária a quantidade de serviços na rede pública de saúde e de estudos destinados à menopausa e à maturidade, o que contribui para uma visão estereotipada das dificuldades que as mulheres enfrentam nessa etapa da vida. Isto dificulta uma melhor compreensão de fatores que podem levá-las a adoecer e o incentivo ao desenvolvimento de mais espaços de atendimento condizentes com suas demandas.

Tende-se a considerar que a depressão feminina na maturidade, durante e após a menopausa, seja decorrente de diversos fatores, como doenças físicas (exemplo: hipotiroidismo) e condições estressantes psicológicas, sociais e culturais. Há ainda muita polêmica sobre a relação entre depressão e menopausa, de modo que se faz necessário que mais estudos epidemiológicos e clínicos esclareçam essa relação. Assim, é preciso cautela ao se considerar a redução estrogênica como um evento responsável pela ocorrência de um conjunto de doenças, como a depressão. A mulher pode temer esta fase de seu ciclo vital, julgando que, além das mudanças em seu corpo, haverá mudanças negativas em sua personalidade e relações interpessoais. Sem a informação necessária, é provável que receie questionar essas mudanças.
Ainda é comum se detectar, na mídia e na sociedade como um todo, uma discriminação implícita pela propagação de uma visão negativa da mulher que envelhece. Essa visão pode ser reforçada pelo estímulo ao emprego da Terapia de Reposição Hormonal. No entanto, a reposição não é questão consensual na Medicina. É um tema polêmico na área médica e em outras áreas da saúde, em face dos possíveis riscos associados ao seu uso.
Muitos sintomas presentes nessa etapa da vida feminina são atribuídos indevidamente à menopausa, dentre eles os depressivos. Apenas irregularidades menstruais, ondas de calor e secura vaginal podem ser, de fato, associados a esse fenômeno. Consideramos que, ao término da capacidade reprodutiva, são conferidos os mais diversos significados pela mulher, pela família e pela sociedade. Não é apenas a maternidade, vista como um destino feminino por natureza, que se coloca em questão com a chegada da menopausa, são todos os papéis culturalmente atribuídos à mulher. Desse modo, à redução hormonal somam-se mudanças psicossociais peculiares à maturidade, os quais tendem a trazer uma série de implicações para a auto-imagem da mulher que envelhece.
Tradicionalmente, as mulheres sempre desempenharam um papel central nas famílias, mas a idéia de que têm uma vida à parte de seus papéis como esposa e mãe é algo relativamente recente e ainda não amplamente aceito em nossa sociedade. Quando se rebelam contra a responsabilidade total pelos vínculos familiares e pela conservação das tradições e rituais, podem se sentir culpadas por não mais exercerem essas funções. Podem sentir ainda que a solidariedade familiar está sucumbindo e que a responsabilidade por isso pertence unicamente a elas.
Mulheres que nunca trabalharam fora de casa podem se sentir defasadas no que se refere às capacidades necessárias para lidar com o mundo externo, caso decidam ou necessitem enfrentar o mercado de trabalho. No momento em que os filhos não dependem mais delas como antes e quando estão começando a ser definidas como "velhas demais", é que precisam aventurar-se lá fora. A organização do trabalho remunerado ainda "não reconhece seus esforços de maneira proporcional às suas contribuições. E as mulheres, tipicamente, não foram socializadas para esperar ou exigir o reconhecimento que merecem". Contudo, muitas mulheres, após a dificuldade inicial diante do novo contexto, adquirem confiança e prazer com sua nova independência. Podem descobrir em si competências que até então não puderam desenvolver em razão do tempo dedicado aos filhos ou a outras atividades, com a valorização de seu potencial. Desse modo, percebe-se que as mulheres tendem a enfrentar muitos desafios na maturidade. Na literatura específica, destacam-se os seguintes eventos:
a) Cuidado ou perda dos pais - à medida que os pais envelhecem, a mulher freqüentemente passa a cuidar deles, sobretudo quando apresentam enfermidades que limitam a sua autonomia. Muitas mulheres entre 55 e 59 anos de idade cuidam, em casa, de um parente idoso. Essa tendência foi recentemente confirmada por Coelho e Diniz (2005), quando discutem a assistência familiar à pessoa idosa com demência. Esposas, filhas e noras permanecem como as principais cuidadoras. O cuidado de pais idosos pode trazer conflitos familiares para a mulher, fazendo com que se sinta dividida entre sua atual família, seus pais e suas necessidades pessoais.
Como cada vez mais as mulheres ingressam no mercado de trabalho, cuidar do parente enfermo pode aumentar suas atribuições cotidianas para as quais não encontra suporte familiar. A cobrança para que zele pelos familiares pode levá-la a se considerar egoísta por buscar uma auto-realização. A morte dos pais também pode ocorrer nesse período, lembrando-a de sua própria finitude.
b) Divórcio ou viuvez - além das próprias mudanças biológicas e psicossociais que a mulher experiência, seu parceiro de mesma faixa etária provavelmente enfrenta dificuldades similares. Lidar com essas mudanças pessoais e, conseqüentemente conjugais, pode ser penoso, em especial para aqueles casais que, ao longo do relacionamento, não estabeleceram uma comunicação mais íntima.
c) Crescimento dos filhos: ninho vazio? - Na literatura sobre maturidade, é comum a referência à "Síndrome do ninho vazio" para caracterizar o processo enfrentado pelas mulheres diante da percepção do crescimento dos filhos. Tal expressão precisa ser questionada, pois o termo síndrome, enquanto um conjunto de sinais e sintomas, remete a uma concepção de doença que não nos auxilia a compreender o necessário trabalho de luto que realizam.
As mulheres que não tinham uma atividade profissional fora do contexto familiar podem ser as mais atingidas nesse aspecto. Ao reconhecerem que seus filhos estão saindo de casa para seguir seus próprios caminhos, elas podem se ver estagnadas no papel familiar materno. A convivência com filhos adolescentes e adultos jovens traz novos desafios. Além disso, a gravidez não esperada das filhas ou namoradas dos filhos pode transportar a mulher mais cedo do que talvez desejasse ao status de avó. Isto contribui para o aumento de suas responsabilidades, principalmente se os netos ficarem sob sua guarda ou cuidado.
Em conseqüência dessas mudanças, a mulher tende a realizar uma revisão de sua vida e do papel que passa a ocupar na dinâmica familiar e em suas demais relações interpessoais. Ela poderá se questionar sobre suas escolhas, considerando-as desfavoráveis a si e a sua família, depreciando seu valor pessoal. A menopausa, o crescimento dos filhos, a sobrecarga em suas responsabilidades quando necessita cuidar de seus pais e a aposentadoria são eventos que lhe indicam as perdas inevitáveis da maturidade. As perdas refletem a proximidade de sua velhice, um tempo que exige outras elaborações. Com a apresentação desse suporte teórico, cabe agora discutir como algumas mulheres falam de possíveis eventos da maturidade que associam à depressão.



publicado por araretamaumamulher às 13:12 | link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
Maio 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
13
14
15

16
17
18
22

23
25
26
27
28
29

30
31


posts recentes

Característicos da violên...

As situações de violência...

Fatores que contribuem pa...

As (in) visíveis seqüelas...

A mulher vitima ou culpad...

Oração da mulher

Miss imperfeita!!!

Mensagem de um homem as m...

A ditadura do belo e magr...

A Ditadura do belo e magr...

arquivos

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

tags

a desvalorização da mulher

a morte de um filho

a mulher e acultura da desvalorização

agressão da mulher

agressão psicologica

agressor

amor

anorexia

aprendizado

baixa auto estima

baixa auto estima origem da dor.

baixa auto-estima

beleza

bulimia

circulo vicioso.

como agir em caso de violência

comotratar a violência

comportamento machista

consentimento silencioso.

criança ferida

cristianismo e o preconceito ao feminino

crueldade na familia

culpa

denuncia

depressão

desejo sexual

deus

dia da mulher

direitos humanos

direitos humanos para a mulher vitima.

dor

dor humilhação

educação

educação de filhos

emoções

envelhecer

falta de amor

familia

familia desestruturada.

feminismo

filho

gordura

humilhação

infância

infancia de dor

inveja

lar

lei maria da penha

luto

machismo

mãe

manipulação.

máscara

medo

medos

menopausa

mentira

mídia

mídia especializada

mitos verdades

morte

morte de um filho

morte prematura

mulher

mulheres

mulheres violentadas.

oração

orgulho

patriarcado

perda

perda de um filho

perdão

perversão

preconceito

rede social

relacionamentos

sagrado

silencio

silêncio

sociedade

sociedade machista

solidão

sonhos

suicidio

velhice

verdade

vergonha

violência

violencia

violência aceita

violência contra a mulher

violência da mulher

violencia da mulher

violência doméstica

violência emocional

violencia emocional

violência psicologica

violência sexual

vitima

vitimas de violencia.

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds