Quarta-feira, 7 de Abril de 2010

http://araretamaumamulher.blogspot.com/2010/04/paz-sem-voz-nao-e-paz-e-medo.html
Mulheres que sofreram, apanharam dos próprios maridos. Quem são elas?
Não se sabe. Sabe-se apenas que mesmo depois da supra sugerida denúncia elas continuam com olhos fugidios, marcas das lembranças, das “cicatrizes da alma”, uma imagem em preto e branco, são as árduas memórias. Na esperança de motivar outras mulheres revivem os maus momentos e tornam-se vítimas anônimas, projetáveis a tantas outras se perde a unicidade de suas histórias, são histórias parecidas, emaranhadas e editadas ao molde do autor assim como nos retratos pintados pelo espanhol Pablo Picasso “especialmente os retratos de mulheres – (...) Jacqueline, Marie-Thérèse, Olga, Dora Maar perderam a identidade pessoal junto com seus sobrenomes; adquiriram em seu lugar as identidades que Picasso pintou para elas, quando entraram em seu universo fixo e fluido como Mulher sentada, Mulher lendo, Mulher com bola napraia, ou às vezes Retrato de Jacqueline, Retrato de Marie-Thérèse, nomes fictícios, inventados para a ocasião. (...), as mulheres de Picasso – suaves ou quebradas em pedaços irados, levemente esboçadas ou cortadas em ácido – não estão presentes por gestos de sua própria escolha” (MANGUEL, p. 206, 2001), ou seja, são maneiras artísticas utilizadas para expressar a dor alheia, elementos semióticos que a propagada se utilizará forma menos magistral e mais faceta. A superexposição de um exemplo para provocar comoção.
Como fechamento do anúncio, temos a presença de uma figura pública, uma atriz, que agora em cores vivas dará as diretrizes para sair da situação de violência. A mulher emancipada, o exemplo a ser seguido.
Mais uma vez tem-se no olho machucado a expressividade da dor e da opressão, mas desta feita envolto não apenas pela dor física, mas também as conseqüências dos outros tipos de violências contra mulher, que geram, além do hematoma e da cicatriz, a vergonha, apatia e a humilhação. Tudo aparece em forma textual e é repetidamente falado, é a violência recorrente que só terá fim se a mulher não se abater. A falta de respeito, a apatia, a humilhação, a vergonha, que junto com o medo, fazem com a mulher não procure ajuda, não apenas para denunciar, mas também para continuar lutando e não desistir de sua vida social.
Aqui não se tem o respaldo de uma figura pública e sim da entidade responsável pela aplicabilidade da Lei. Muito se fala em encorajar a mulher para a denúncia, mas pouco se diz nas propagandas, se o Estado está preparado para tirar a Lei do papel e garantir os direitos nela expressos, tais como a implementação de atendimento policial especializado para as mulheres, em particular nas Delegacias de Atendimento à Mulher, oferecer defensoria pública ou programa oficial ou comunitário de proteção.
Ocorre que, dentre as formas de violência doméstica, encontra-se a primeira e mais fácil de evidenciar-se, a corporal. Basta um exame médico-legal para averiguar-se a existência da agressão física perpetrada pela ‘cara metade' da mulher. Isto não ocorre quando se está diante da violência psicológica. Esta se mostra difícil, tormentosa, no seu deslinde e revelação. Acredita-se que, não obstante ser de difícil comprovação deva existir uma busca incessante das provas e circunstâncias desta espécie de violência, por parte da que sofre tal abuso. A violência na psique na mulher ocorre, em essência, quando sua auto-estima é solapada pelas menores humilhações e picuinhas no universo da convivência doméstica, efemeridades estas que desembocam na conduta que a degrada, bem assim, quando é privada de agir de acordo com a sua própria vontade. Tais aspectos estão umbilicalmente ligados; de uma parte, estão às perversidades diárias por parte de quem seria, ou deveria ser o seu melhor amigo, companheiro para toda uma vida; de outra parte, estão às limitações impingidas sempre no seu cotidiano, no seu viver; ‘não faça isto', ‘não gosto disso', ‘não quero isto', ‘você está errada nisto'; daí surge aquela que, criada e ‘cultivada' em um universo machista, submete-se a estas violências sem querer admitir ser ela, a vítima, produtora do seu próprio algoz. Há uma simbiose, uma relação viciada, gerada, da parte da mulher, de ser considerada a guerreira, a que suporta tudo, em nome de uma convivência, convivência esta em muitos casos geradora de prole, e por esta prole, dizem, fazem de tudo para suportar tal estado degradante do seu ser, da sua psique. Não é tão somente por conta desta prole, é também por conta disto. Mas, é também por conta desta função que considera socialmente edificante: tentar mudar o outro para que ele saiba, lá no fundo, e venha à superfície, que se trata de uma mulher especial, que com ele está para ‘o que der e vier', ‘até que a morte os separe', ou até que um colapso nervoso ocorra. Nossas ancestrais, e aí entra o nosso amigo FREUD em campo, sempre se gabavam de que haviam agüentado todas as intempéries perpetradas por seus companheiros, maridos, até que um dia eles começaram a mudar, ‘a mudar para melhor', não mais as traíam, não mais as agrediam. Depois até de 45 anos de casados! Viu só, conseguiu-se finalmente ter aquele amigo, companheiro, para o crepúsculo da vida...
“O lugar que ela não deve ocupar, ou seja, o lugar de agressora”. E isso se deve ao fato da sua imagem estar atrelada ao cuidado, à proteção. Talvez essa seja uma das questões que torna difícil o reconhecimento das desordens que as violências geram, como restritos universos masculinos.
E para comemorar o grande feito, será ela agora a enfermeira que cuidará das doenças do corpo do pobre mortal, já que a mazela da alma suportou todas com invejável galhardia por quase uma existência inteira... Então surge a pergunta que tanto nos inquieta: que vitória é essa? A de Pirro?
A não expressividade, mesmo com todas as cicatrizes e todas as mentiras, abala ainda mais, pois percebemos a luta silenciosa de todas as vítimas de violência conjugal de não ter a quem recorrer. Com a omissão do choro a dor também pode ser expressa por detrás de um singelo sorriso.
Essa paralisia, resignação com a dor, reflete o medo de romper com o modelo imposto pela sociedade, pela igreja e pela família e, assim, viver fora das crenças e ideologias dominantes, mesmo que seja em nome de sua própria felicidade. Ao fim da hercúlea jornada, a mulher acaba descobrindo que passou pela vida e não viveu (ou viveu em função do outro, tentando mudá-lo, adaptando-se ao seu perfil, cuidando dele, respirando baixo para não incomodá-lo, etc.), foi um espectro de ser humano que se deixou esmagar pelo desamor e pelo desrespeito de seu parceiro, o qual, com essas indeléveis e silenciosas formas de violência, fez sucumbir à mulher e o amor que lhe sustentou por toda uma vida. Morreu. E não sabia.
Então, desesperadas e agredidas, num último sopro de vida, auto-estima e fé, as Marias, Beneditas, Imaculadas entre outras tantas vítimas da crueldade de seus ‘amados', buscam um ‘braço forte' que as ajudem a romper com esses grilhões, uma ‘mão amiga' que lhe mostre uma nova forma de recomeçar a vida com dignidade. 
Sejamos nós esse farol, prontos a dissipar as névoas dessas existências tão sofridas e sombrias......Oxalá possamos nós ensinar ao mundo o que mais precisamos aprender: o respeito ao próximo, à sua diversidade e, à sua liberdade de escolha.
Dificilmente o agressor deixará de agredir devido às bem intencionadas propagandas. Não se sabe o que a Lei prevê por meio das comerciais que falam diretamente às próprias vítimas. O medo deveria ser do agressor perante a Lei.
A violência doméstica contra a mulher é repudiável em qualquer instância, assim como o é o retrato da mulher na televisão, na música, os papéis lhe impostos e a continua descriminação e desconfiança em outros antros que não os cantos escuros e solitários da violência.



publicado por araretamaumamulher às 12:56 | link do post | comentar | favorito

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