Segunda-feira, 5 de Abril de 2010

Quem sabe, não poderíamos salvar o amor?
O que e como poderíamos pensar acerca das relações humanas construídas sobre a díade ambivalente do amor e violência?
Escrever sobre o amor é uma empreitada arriscada, assim como é vivê-lo. Tanto já se disse sobre esse sentimento ou sobre essa idéia que qualquer tentativa nos parece redundância e exagero. Mesmo assim, correr o risco é o que nos resta.
O trajeto amoroso seguiria três etapas: a primeira, a captura, quando se é capturado por uma imagem; a segunda, uma série de encontros, onde fico maravilhado por tantas coincidências em termos de “afinidades, cumplicidades e intimidades, ... sendo a cada instante do encontro, a descoberta de um outro eu-mesmo”. Entretanto, um terceiro ato se impõe, opondo-se à continuação desse tempo feliz. A continuação é o “longo desfile de sofrimentos, mágoas, angústias, aflições, ressentimentos, desesperos, embaraços e armadilhas dos quais me torno presa, vivendo então sem trégua sob a ameaça de uma decadência que atingiria ao mesmo tempo o outro, eu mesmo e o encontro prodigioso que no começo nos descobriu um ao outro”.
Quando o par constrói o enredo violento e, principalmente, quando um jogo se estabelece e um dos parceiros se vitimiza deixando ao outro, fixamente, a posição de carrasco, permitindo uma configuração estática na polaridade vítima-agressor. Que idéia de amor poderíamos construir a partir deste tipo de atração entre duas pessoas onde a ocorrência de atos grosseiros, possessivos e violentos podem acontecer? Sem a pretensão de esgotar ou mesmo responder a tal questão, lançaremos mão de algumas idéias recolhidas durante as leituras de diversos textos a fim de tornar menos nebuloso nosso caminhar.
O momento do amor que aqui procuramos entender não é mais aquele do arrebatamento, onde o amado parece ser dotado da qualidade extraordinária de corresponder exatamente ao meu desejo. Para Barthes, neste momento, o outro é, inclassificável, “é a figura de minha verdade” e sua distinção implicaria em seu conhecimento e este, na quebra de uma ilusão. Seria, a quebra das ilusões, caminho inexorável dos amores prolongados? A perda de gratificações narcísicas abririam lacunas, engendrando no terreno do amor “a discórdia, deusa da neurose universal” ?
Sobre esta última etapa, Barthes a aborda no verbete “Fazer uma cena” (p.36/37). Neste, procuramos referências para uma “compreensão” acerca da ambigüidade como condição estrutural do amor. O autor parece confirmar que a cena (“a justa entre os dois atores, o diálogo”) faz parte de um contrato velado, faz parte daquele amor e justifica-se como se fosse um gozo perverso, já que a contenda não será, absolutamente, motivo para separação, ao invés, alimento vertiginoso para o que ele chama de “nunca você, sem mim” e vice-versa (p. 36). Barthes põe-se então, através do esmiuçar de uma das últimas cenas de Werther, a traçar a dinâmica da cena. A cena é um desequilíbrio, cujo âmago -um engano-, geralmente, é um fato ou uma decisão. A idéia de que o outro provocou e, conseqüentemente, é responsável e merecedor de uma resposta agressiva; o freio impossível depois da cena desencadeada, a justificativa do amor ferido para dar início à cena violente são falas comuns nos relatos de quem vive ou viveu interações deste tipo. Para Barthes, um acordo é impossível já que o que está em jogo é inapreensível, ou seja, não há um objeto. Mas então, o que está em cena, o que está perdido? “A cena não tem um sentido.... pela insignificância lembra um vômito”. A significância, que se adquire somente após a última palavra, “é dar sentido a tudo que se disse, é dominar, possuir, dar, atribuir o sentido: no espaço da fala, aquele que vem por último ocupa um lugar soberano... pela última palavra eu vou desorganizar, ‘liquidar’ o adversário, infligir-lhe uma ferida (narcísica) mortal, vou reduzí-lo ao silêncio, castrá-lo de toda fala”. A última réplica garante todo o poder. E o amor, onde fica?
Não poderíamos deixar de trazer aqui duas construções conceituais de Freud que relacionam-se de maneira intrincada ao tema tratado: o narcisismo e o masoquismo.
Como sabemos, “Freud relaciona o estado amoroso ao narcisismo: a escolha do objeto de amor, seja ela “narcísicas” ou “por apoio”, mostra-se de qualquer maneira satisfatória, quando e somente quando, o objeto garante uma relação com o narcisismo do sujeito segundo duas modalidades: por gratificação narcísica pessoal (neste caso, Narciso é o sujeito) e por delegação narcísica (neste caso, Narciso é o outro, para Freud –a mulher)” (Kristeva, 1988: p. 42). Que posição é essa, desse sujeito, que delega ao outro o lugar de Narciso? Consideremos narcisismo sendo o amar-se a si mesmo como condição para poder amar o outro. E quando falha esse processo de narcisismo, como poderíamos pensar na construção da capacidade desse sujeito em amar? Em que medida constiuí-se aí, nesta ‘falha’, o mecanismo do masoquismo?
Pensando em termos da teoria freudiana acerca do masoquismo, este refere-se basicamente “à uma posição do sujeito em relação ao outro onde o outro é sujeito de seu desejo, ou seja uma posição de objeto à mercê do desejo do outro” (Beneti, p. 64). Segundo esclarece Colette Soler, segundo o autor acima referido, “há uma equivalência imaginária entre esse ser batido, ser espancado presente no masoquista com o ‘papel feminino’ na relação sexual”. Tudo isso numa equivalência a “ser amado” (ibid). A rápida conceituação acerca do masoquismo é suficiente para fazer surgir na memória relatos de análise onde a mulher (e também o homem, sem dúvida, em menor número) trazendo seu sofrimento em forma de discurso, diz não entender porque aceita determinada posição dentro do casamento. São anos de submissão, de ser aviltada com grosserias, acusações, humilhações, aniquilamento e mesmo assim referirem gostarem muito do marido e de certa forma, sentirem satisfação, alguma recompensa nisso tudo. A mulher, presa a ser causa do desejo do outro, fixa-se nessa posição e segundo Colette Soler, só “se é por procuração do Outro, com o endosso do Outro”. Será que é isso que se confunde com o estado amoroso, permitindo-se tantas ofensas, agressões verbais e ameaças, lágrimas, sentimentos de raiva, frustração, culpa e impotência? Do que a mulher abre mão em deixando de ser o sujeito de seu próprio desejo, alienando-se de si mesma?
Aliena-se das múltiplas possibilidades e facetas de sua feminilidade fixando-se numa posição bastante auto-destrutiva. “Até pouco tempo atrás as circunstâncias sociais separadas e desiguais” para homens e mulheres, podemos esperar que à dissolução dessas circunstâncias a sexualidade do homem se torne “problemática e compulsiva.
“O senso masculino de auto-identidade é forjado em circunstâncias em que uma orientação para a auto-suficiência está associada a uma desvantagem emocional potencialmente mutiladora” , já que essa independência está associada ao desligar-se do amor materno e de suas influências. A carência do homem -já que lhe faltaria a elaboração de uma auto-identidade que descrevesse “em detalhes a dor da privação do amor materno inicial” - pode vir a se manifestar na raiva explícita e na violência. Para as mulheres, a expressão de sua sexualidade foi ocultada até o início do século XX, o ocultamento do homem foi em relação à potência devastadora de seu trauma em relação à mãe e, conseqüentemente, seus efeitos desenvolveram-se em pelo menos duas grandes formas: suas vicissitudes nas relações com as mulheres e tendência à agressividade legitimadora de sua virilidade. Os homens não seriam capazes de atingir uma “autonomia emocional”  desenvolvendo dependências “mascaradas” em relação às mulheres, dificultando a manutenção da intimidade.
O estereótipo da mulher sendo submissa como conseqüência do peculiar desenvolvimento psicossexual feminino; o estereótipo é mais reflexo das restrições impostas para às mulheres durante tantos séculos. Como tudo na vida são ganhos e perdas, as mulheres “prepararam o caminho para uma expansão do domínio da intimidade em seu papel como revolucionárias emocionais da modernidade” e, não sendo mais “cúmplices do papel do falo”, expõem, no recente processo histórico, os “elementos traumáticos do machismo”.
O reconhecimento, por parte de ambos, dos chamados ganhos e perdas da interseção entre os processos de desenvolvimento psicossexual peculiares e os processos históricos. A análise também aponta para a possibilidade de estabelecimento nas relações amorosas, tanto hetero como homossexuais, do que ele chamou de “relacionamento puro”, um fenômeno recente que faz parte de uma “reestruturação genérica da intimidade”  e é paralelo ao desenvolvimento de uma sexualidade plástica, isto é, “uma sexualidade descentralizada, liberta das necessidades de reprodução e....da regra do falo, da importância jactanciosa da experiência sexual masculina” .
Estaria em curso, portanto, uma mudança nas formas de vínculo pessoal, entre elas o casamento. As análises de Giddens possibilitam um otimismo no que tange, individualmente, a cada um apropriar-se de seu desejo e ser tão sujeito dele quanto o outro dentro da relação amorosa, aumentando a potência erótica e diminuindo, assim, o protagonismo do princípio do poder dentro das relações.
Coletivamente, poderíamos esperar, além de uma queda nos índices de violência contra às mulheres, “um mundo em que a realização emocional substituísse a maximização do crescimento econômico tornando-se muito diferente daquele que conhecemos hoje”.
Quem sabe, não poderíamos salvar o amor?



publicado por araretamaumamulher às 14:03 | link do post | comentar | favorito

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