Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
Sinto que tenho um caminho a seguir, o de descobrir o porquê de tudo isso. O fato de sempre me sentir, por baixo, de nunca ter tido nenhuma auto-estima, de sentir uma vergonha enorme de quem eu realmente sou, de me achar sempre uma fraude, me levou a ter uma máscara de orgulho exarcebada, e a me esconder de tudo e de todos. Na realidade hoje sei que eu tinha medo das pessoas. Por isso sempre me escondi, não podia contar com ninguém, e foi isso que me levou a andar em círculos obstinadamente, cometendo os mesmos erros, porque assim eu pensava que ninguém nunca saberia quem eu realmente era. Quem será que eu realmente era? Eu hoje não sei quem eu sou então como explicar o medo que eu tinha de quem eu era?
Tenho pensado muito e me recordado da minha infância. O meu maior problema sempre foi o dinheiro. Meu pai era uma pessoa compulsiva e nunca soube lidar com dinheiro, ele e minha mãe iam gastando e quando acabava eles vendiam mais alguma coisa, quando acabou tudo o que tínhamos , eles começaram a pedir dinheiro emprestado, para a família. Meu pai chegou a vender uma parte da herança da minha tia.
Quando a situação ficou insustentável fomos morar na casa da minha avó, ela acabou tendo que comprar outra casa para ela, porque não conseguia conviver com o sadismo do meu pai. Meus tios sempre tiveram que nos ajudar, mas era uma ajuda que vinha sempre com muita humilhação, com ironia, e que aumentava ainda mais o nosso complexo de inferioridade, e nosso sentimento de culpa.
Mas isso nunca preocupou os meus pais, tanto não os preocupou, que até hoje minha mãe mora na casa que era da minha avó, hoje ela mora lá por opção, e nunca teve a menor preocupação em preservar a casa.
Agora que consigo ver melhor toda a situação, vejo que tenho repetido esse padrão, em minha vida. Talvez os cenários sejam outros, mas o padrão de nunca ter dinheiro, de está sempre precisando da “ajuda” de outros, de não saber lidar com o lado financeiro da minha vida. E principalmente de ficar sempre em situação de exposição, para receber uma humilhação por causa disso. Parece que procuro uma forma de ser humilhada.
E sempre dentro de mim ficava a certeza de que se as pessoas quisessem podiam me perdoar, ou esquecer a minha divida. Ou seja, eu queria que cuidassem de mim, que alguém tomasse em suas mãos a responsabilidade por minhas finanças.
Mas ao mesmo tempo tinha um sentimento de culpa, um medo, de ser cobrada, de ser humilhada. Do que as pessoas iam falar quando soubessem que eu não tinha o dinheiro. Esse era um padrão que eu tinha, então fica obvio que eu já sabia, ou melhor, estava procurando, uma forma de ser humilhada, de ouvir algumas poucas e boas. Eu levava isso até a situação se tornar insustentável.
Hoje sei que essa era uma das formas que tinha de ser filha dos meus pais, de está próxima a eles.
Meus pais nunca assumiram nenhuma responsabilidade, e eu também não, eles nunca se permitiram nenhum tipo de prazer a não ser a comida, e eu também agia assim.
Nunca me permiti ser feliz, nunca me achei digna de ser amada, de ser respeitada. O dinheiro sempre foi algo muito desejado em minha vida, e ao mesmo tempo tinha um sentimento de culpa, uma urgência em deixá-lo, porque o dinheiro é “sujo” e “só os pobres herdaram o céu”.
Sempre apanhei muito, da minha mãe, e meu pai nos colocava de joelhos para rezar o terço, em cima de grãos de milho e de braços abertos. Carreguei comigo o padrão de que eu merecia ser espancada, que eu não era boa, era porca relaxada, preguiçosa, vagabunda e merecia todo o tipo de “castigo”. Tudo o que acontecia ao meu redor, eu me sentia culpada, e isso me levava a sempre tentar “consertar as coisas”, quando não conseguia, eu mentia porque não suportava a culpa de ver os outros sofrendo “por minha causa”.
Não conseguia entender que era eu que causava o sofrimento dos “outros” com minha mentira. Tentado ser “boazinha”, na verdade tentando desesperadamente ser vista, ser ouvida, que alguém no mundo me enxergasse. Eu queria ser necessária para alguém.
Não me sentia necessária nem para os meus filhos.
Conclui daí que toda a minha vida havia sido até aquele momento um constante recriar da minha infância. Tudo o que eu fazia tudo o que eu falava, tudo o que eu viva, era com o intuito de reviver a dor que sofri na minha infância, e talvez assim entender o motivo de tanta dor ser imposta a uma criança.

Fique na luz e na paz
Fátima Jacinto
Uma Mulher.


publicado por araretamaumamulher às 18:53 | link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Dethe Marthan a 24 de Outubro de 2009 às 18:30
Uau!Que profundo!!!Amei viu? E amei seu blog tb...E sendo sua seguidora agora, peço que faça uma visitinha no Blog da Bébah e no meus desabafos:baudabebah.blogspot.com...Beijos querida...continue assim, uma VERDADEIRA MULHER!!!Deus te abençoe!


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