Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
A televisão, especialmente na dramaturgia, constrói um ideal de mulher, tanto no plano físico quanto em outras dimensões humanas, como a emocional, profissional e social, reproduzindo uma imagem que passa a ser, uma vez padronizada, a real e desejável. Agrega-se ao corpo padronizado um comportamento social com elementos que não retratam a diversidade da mulher brasileira. Na imagem divulgada, a mulher brasileira não se vê retratada porque a imagem não contempla a diversidade.
Está presente na dramaturgia televisiva, nos programas cômicos, na apresentação de telejornais, a naturalização da discriminação contra a mulher, sua reprodução e reforço, sempre predestinando a mulher a papéis sociais seculares como a maternidade, a sexualidade vigiada e reprimida, o compromisso com o casamento a não visibilidade profissional.
Nos mais diversos campos do conhecimento, filosófico, histórico, científico e nas artes aponta-se historicamente para a naturalização desta discriminação e a televisão auxilia no reforço desta discriminação.
As feministas e o Movimento de Mulheres deram visibilidade a essa naturalização da opressão e pré-determinação, nas lutas de rua e, mais recentemente, também no campo teórico, a partir da adoção de uma categoria, a de gênero, abarcando as relações entre homens e mulheres como uma construção histórica e social, não natural, e, portanto, destrutível da mesma forma que foi construída. A categoria desnuda a situação apontando para as relações de poder entre homens e mulheres, relações essas de subordinação e não de igualdade.
0s conceitos e visão sobre a mulher veiculados na mídia e na grade de programação de TV (publicidade, cômicos, jornais, variedades) sugerem comportamentos sociais desejáveis, especialmente na dramaturgia televisiva, na qual se reforça a situação hierárquica entre homens e mulheres, a partir de uma determinada visão de mundo, levando à construção (ou desconstrução) da mulher real. O norte é sempre o consumo e obviamente o lucro. Promove-se a reificação dos corpos construindo estereótipos.No reality show denominado Big Brother Brasil, as pessoas selecionadas para atuar já sabem que terão seus corpos praticamente vendidos para as revistas de nus.
A televisão constrói essa mulher, recortando e retalhando seu corpo. À exemplo da ciência médica que em sua história pôde construir e implantar membros do corpo humano, no campo estético corporal ocorreu o mesmo: recorta-se o corpo feminino, em partes, implementa-se modelos nestes recortes até se chegar à figuras padronizadas, e, claro, como sói e acontece no capitalismo, em seguida essa imagem ideal é vendida junto com um produto comercial ou como o próprio produto.
A maternidade na teledramaturgia ainda é colocada como uma imposição, como um valor máximo para a mulher e surge ligada à sexualidade. Se infiel - heroína ou vilã- logo são encontradas formas de puni-las. Na novela "Senhora do Destino" para uma das noras da heroína Maria do Carmo é aplicado o método de valoração social a partir da capacidade reprodutiva da personagem: o fato de não poder ser mãe ( e também por ser a segunda esposa) influirá negativamente em sua vida.Sua sexualidade é absolutamente ignorada. Vende-se a idéia da maternidade obrigatória, como realização máxima de todas as mulheres.
O comum é a louvação da heroína como cuidadora (dos filhos, do marido/companheiro, dos doentes, da casa). A heroína Maria do Carmo e também Júlia na novela seguinte da rede Globo denominada Belíssima são imagens maternas santificadas. Mas, também não há muita alternativa para as vilãs, que, se por um lado, convivem bem com sua sexualidade, por outro lado têm destino certo: morrem no capítulo final da novela....
A idosa pode ter vida sexual prazerosa desde que compre o sexo, como foi o caso de duas mulheres na novela citada, Belíssima. Já para a Juventude a situação, em geral, é de classe, se negra e pobre, em geral é promíscua. As heroínas, sempre quietas e submissas, tendo um bom comportamento, são premiadas ao final da novela com um bom casamento.
Existe a imposição de um modelo sexual dominante considerado natural repetido à exaustão para heroínas e vilãs que reproduz preconceitos porque baseados na repressão sobre a sexualidade feminina e porque não levam em conta as especificidades da mulher e sua situação histórica, A avaliação do grau de cumprimento do papel social da mulher é feita a partir de valores como sua honra, honestidade. A perspectiva televisiva é conservadora ignorando ser a sexualidade uma construção histórica e cultural (fatores familiares, tradições e práticas religiosas) e não sob o prisma da cultura ocidental cristã e judaica da idéia do paraíso perdido, do perdão e da culpa e da repressão.
É divulgado um padrão de beleza física, tendo como requisito básico a magreza. A ironia é que a novela se propõe a discutir o assunto, porém é ela mesma que divulga e propaga um tipo ideal de corpo de mulher. O mundo contemporâneo fala em pluralidade e diversidade,mas a beleza, na televisão tem padrão único, com os obesos excluídos do mundo, em uma gritante contradição com um aumento no mundo dos obesos.
Nos telejornais norte-americanos, não há mulheres idosas, o que,de resto, salvo raras exceções é também o que ocorre no Brasil.
As novelas televisivas não focam, exceto de forma muito superficial, a diversidade dos tipos físicos, dos modelos sociais, das profissões exercidas pelas mulheres. Como é possível se ver retratada em um modelo padronizado que não reflete a imagem e realidade de milhares de mulheres do país?
As heroínas das Novelas das oito, hoje das nove, há quase trinta anos, não se realizam profissionalmente sem o casamento ou sem uma mínima ajuda masculina. As mulheres raramente são vistas trabalhando. ( somente em situações emergenciais ou para compor renda da família (Maria do Carmo, na Novela das Oito/Nove de 2005, e Katina em Belíssima, na novela de 2006). Nesta última, a heroína,neta de Bia Falcão assume a empresa da família, mas assim que se casa passa a empresa para o marido. Poder-se-ia dizer que não há razões dramáticas para mostrar alguém trabalhando, mas é certo que os homens têm no drama televiso visibilidade trabalhando,,.( restaurantes, academias de ginástica, salas de artes e como empresários)
Dá-se naturalidade ao trabalho das empregadas domésticas, sem horário para descanso e encerramento de suas atividades. Em geral não têm fala.
Mulheres com outras imagens, a saber, como trabalhadora, como militante, com autonomia sobre o seu corpo e situação profissional, com físicos e belezas estéticas diferenciadas são muito raras, somente nos chamados programas especiais, o que, é ruim, porque então as mulheres, se tornam também especiais, ou seja, fora dos padrões de normalidade.
O certo é que não se tem contemplada a diversidade: dos tipos físicos, dos modelos sociais, das profissões exercidas pelas mulheres. Como é possível se ver retratada em um modelo padronizado que não reflete a imagem e realidade de milhares de mulheres do país?
O direito copia preceitos da Igreja, depois os recria para o seu campo, Durante décadas castigou as mulheres deixando de punir os crimes de gênero bem como ignorando a violência doméstica contra a mulher. O uso dos canais de televisão por determinação constitucional é uma concessão pública e o espaço eletromagnético é do povo, portanto, o Estado tem que ter políticas públicas preservando a imagem de cinqüenta e dois por cento da população brasileira. Não pode ser permissivo quanto à reprodução da discriminação da mulher.
Os direitos das mulheres são difusos e coletivos, constitucionais e internacionais e também direitos humanos. As denominações não são meros nomes jurídicos, implicam em respeito e defesa a tais direitos junto as poderes públicos, através de denúncias, ações coletivas, civis públicas, tendo como sujeitos de sua história, de seus direitos e interesses, não só esta ou aquela celebridade, mas sim mais da metade da população brasileira.
Assim, a realidade da programação televisiva tem que ser pensada não só de forma metafísica ou filosófica, ou do ponto de vista crítico no campo das artes e da estética. É preciso pensar a sua transformação.
No capitalismo, é de se reconhecer, muitas são as dificuldades no que se refere à defesa da imagem da mulher na mídia, porque o sistema tem como centralidade o lucro, portanto a idéia é vender os produtos, seres humanos ou pedaços deles, o próprio planeta se possível, e também porque os meios de comunicação, são em geral, correias de transmissão do Estado posto no país. Sabemos que TV socializada depende da socialização dos meios de produção.Entretanto,não se pode ignorar que a luta das mulheres tem avançado ainda que nos marcos do capitalismo: vitórias foram e estão sendo contabilizadas.
Quando se examina a questão do controle social das grades das redes de TV, estas logo se insurgem alegando a impossibilidade de qualquer restrição porque tal fere o direito à liberdade de expressão, de pensamento e de criação artística. Não toleram o controle social. Mas, o que aqui se defende é a democracia do mundo das comunicações.Não há qualquer sugestão no sentido de impedir a liberdade artística de criação e veiculação de imagens e mensagens.
Porém se questiona: de que democracia se está falando? A verdadeira pressupõe a defesa, pelos interessados, de seus valores de classe, culturais, éticos e morais, não sendo, portanto, aquela que humilha e que coloca a mulher em uma constante relação de subordinação e inferioridade, que leva à baixa-estima, que fere a dignidade da pessoa humana em uma grade programática televisiva que atinge milhões de mulheres (com certeza mais da metade da população brasileira). A quem serve uma programação na qual se reproduz, e se reforça a proposital confusão entre um corpo e um carro ou uma garrafa de cerveja? A televisão tem que atender às necessidades humanas, à diversidade cultural, sempre sem perder o respeito ao ser humano, e, é dessa liberdade de produção que aqui se trata. Há que ser levada em conta a nossa diversidade.
A liberdade de informação, de produção cultural, é garantida pela Constituição, mas ela própria estabelece limitação para tais direitos.
As mulheres somos movidas pela idéia da transformação, com noção de historicidade. Como sujeito histórico estão nesta luta contra a forma pela qual o mundo televisivo retrata a mulher, sem que se possam reconhecer nas imagens apresentadas impondo-lhes padrões estéticos, ignorando diversidades e muitas vezes humilhando-as, sem que tal signifique, de forma alguma, qualquer impedimento quanto às formas de criação artística, de pensamento, ou de produção cultural : busca-se, na verdade, uma diversidade que está posta na realidade.Não somente a celebridade, afinal, tem direito à preservação de sua imagem, qualquer mulher tem este direito...
Nota : A partir de estudos e pesquisas, as entidades feministas, e dentre elas, as mulheres do PCB, ingressaram com pedido em São Paulo, junto ao Ministério Público Federal requerendo, contra todas as redes de televisão, a representação da nossa diversidade.A Promotoria concordou em receber o pedido e o procedimento está em pleno andamento. Mercedes Lima
Coletivo de Mulheres Ana Montenegro
Membro do Comitê Central do PCB


publicado por araretamaumamulher às 13:16 | link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Lauro Daniel a 13 de Janeiro de 2010 às 14:15
Olá,

Considero este um dos melhores artigos que já li na internet, pois tenho a mesma opinião.

As novelas são um festival de imbecilidade e irrealidade, para eles, tudo se resume a casamento, filhos e dinheiro.

Cabe a uma mulher, o casamento e os filhos, incentivam a falsa fidelidade e a hipocresia social, as novelas em geral são um festival de besteiras para qualquer pessoa com o mínimo de consciente intelectual.

Parabéns pela atitude dos orgãos que representam as mulheres, é preciso entrar com ações e combater essa marginalização e dominação da mulher que eles passam.

Grande Abraço;
Lauro Daniel


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