Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009
Conta o mito grego que a deusa Hera, filha de Cronos, era o objeto da paixão de Zeus. Seu irmão divino havia, inutilmente, tentado todo tipo de subterfúgio para conquistá-la. A deusa, porém, fugia-lhe. Foi então que, inconformado, ele adotou um último artifício. Um dia, vendo-a vagar pelas montanhas após uma tempestade, Zeus metamorfoseou-se em um cuco, triste e tremendo de frio. Ao vê-lo, a bela Hera compadeceu-se do bichinho, o recolheu e o levou ao peito para aquecê-lo. Repentinamente, Zeus retomou sua forma e a fez sua amante, sem antes, porém, prometer o que ela queria, o matrimonio.

Como é sabido, o casamento de Hera com Zeus não foi dos mais felizes. Não só o deus era inconstante e infiel, tendo inúmeros casos com deusas, ninfas e mortais, como ele assumiu o poderio absoluto do Olimpo, relegando Hera ao segundo plano. Talvez não acaso, a deusa estivesse tão relutante em aceitar a paixão de Zeus.

O coração piedoso a traiu. Foi sua generosidade, sensibilidade e zelo pelas criaturas que tornou Hera presa de Zeus.

Este episódio da vida de Hera modela, ainda hoje, certas experiências femininas. Muitas vezes, é o sentimento carinhoso da mulher que a boicota e a coloca ou mantém em situações que lhe são desfavoráveis. Assim como Hera, as armadilhas nas quais a mulher cai são as que apelam à sua sensibilidade maternal. Por conta disso, ela pode abafar seus desejos e necessidades. É como se houvesse uma vergonha interna que a impede de dizer “não”, e de simplesmente cuidar da sua vida em prol de seu próprio crescimento. Esta situação não atinge só mulheres, mas suas raízes estão num modelo feminino de relacionamento.

Manter relações que nos prejudicam porque se tem dó da outra pessoa é o resultado de uma confusão psicológica interna. Nasce da crença equivocada de que se “deve” ao outro alguma coisa e que abandonar a criatura ao seu destino nos tornaria “más”. Não se percebe que a outra pessoa não demonstra a mesma preocupação para conosco e, muitas vezes, continua cega e surda àquilo que é preciso mudar, mesmo assistindo à nossa infelicidade.

É preciso também esclarecer que não é necessário brigar com alguém para decidir mudar de rumo. Pode-se inclusive continuar gostando de uma pessoa e perceber que a relação não nos faz bem, que, pelo contrário, corta nossas asas e trava nosso movimento. Se, após tentativas e investimentos, as coisas não mudarem, é hora de tomar uma atitude. Cuidado com a auto-sabotagem. Encontros e despedidas fazem parte da vida. O que recebemos, também, com certeza já demos. Há caminhos que duram menos do que o esperado, nem por isso são errados. E se não são errados, nem por isso devem ser eternos.

Ter perspectivas diferentes sobre a vida obriga as pessoas a criar alguma forma de conciliação, que haveria de ser boa para ambas. Quando, porém, se possui desejos e falas parecidos, mas comportamentos e interesses concretos divergentes acabam que uma das partes sucumbe, “adaptando-se” à outra. A alternativa a isso seria ignorar os interesses da outra pessoa e levar adiante a própria vida, neste caso quem sucumbe é a relação.

Geralmente (mas é bom lembrar que pode ser exatamente o contrário), são as mulheres que se encaixam nas limitações do homem. Ao bloquear seu movimento pela dó que sentem da dor, da solidão e do desamparo do outro, estão refazendo os mesmos passos de Hera. Congelam-se naquele momento em que ela recolheu o pobre cuco do chão frio e o afagou ao peito. Congelam também ele na forma de um pobre bichinho indefeso e só. Como num disco quebrado, a mesma estrofe é repetida inúmeras vezes.

Enquanto isso se perde de vista o fato que a vida continua que os anos passam, e que o cuco, na verdade, é o alter ego de Zeus todo poderoso, que, assumindo o controle total da situação, comanda o Olimpo conforme seus caprichos e inclinações pessoais. O ego, quando deixado a si mesmo, sem interlocução adulta é sempre autoritário e tirânico, apesar de, por fora, parecer carente e inócuo.


publicado por araretamaumamulher às 15:14 | link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Edson Palma a 24 de Dezembro de 2009 às 12:18
É,prá nós homens é bem complicado lídar com às emoções e sentimentos de nossas companheiras,na grande maioria das vezes.Mas lendo este seu post dá pra buscar encontrar um pouco mais de desejo de decobrir mais além de beleza,e convivío junto de alguém que gostamos.É preciso também buscar estar envovido com às intenções e aspirações do conjugue.Gostei de ler seu post...E percebo seu interesse dentro deste universo,sim.


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