Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
As coisas na minha vida se repetem, às vezes mudam o cenário, sempre muda os personagens, mas as situações são as mesmas. Desde criança, sempre desejei ardentemente ter dinheiro, status, estudar, ser amada, querida, desejada, e parece que quanto mais eu queria isso mais longe tudo estava de mim.
Nunca tive dinheiro suficiente nem para as despesas básicas, não consigo me lembrar de ninguém que daria uma boa informação sobre mim. Não me sinto amada, nem querida, e muito menos desejada. Tenho séria dificuldades em honrar qualquer compromisso. É como se eu sabotasse as coisas boas que poderiam em acontecer por não me sentir digna delas, Enem da confiança dos outros. Alias a verdade é que me sinto indigna de confiança. Estou sempre achando que as pessoas vão descobrir alguma coisa errada em minha vida e que ai todos os meus planos vão por água abaixo.
Sempre senti que merecia ser castigada, assim ao menos estava “sacrificando” por ser uma pessoa tão má, que envergonhava minha família, e todos que inadvertidamente se aproximavam de mim. Devido à desde muito cedo ter sofrido horríveis espancamentos, sem nenhuma causa justa, (minha mãe me batia de chicote de bater em cavalo, ele todo trançado no couro com um nó na ponta, e o cabo de madeira, quando ela estava muito nervosa, arrematava com o cabo na minha cabeça. Existiam outros instrumentos, como uma enorme colher de ferro, ou varas que eram colhidas a dedo para servirem especialmente para os momentos em que ela decidia nos espancar). Então foi assim que cresci ouvindo o quanto Deus era poderoso, irritadiço, e sensível, qualquer coisa ó tirava do serio, e sendo espancada, porque eu não prestava, não era uma pessoa boa, não merecia ter o que tinha. Sabe o que eu tinha? Nada. Morávamos em uma fazenda, que meu pai foi vendendo aos poucos, quando eu tinha oito anos já não tinha mais nem a fazenda, mas nós continuamos morando lá, como se nada tivesse acontecido, até que o proprietário decidiu nos enxotar literalmente, se ele não fizesse isso minha família não sairia. De lá mudamos para casa da minha avó, e tudo se repetiu de novo, com o diferencial de que de lá minha mãe não sai nem enxotada... Toda essa situação degradante, humilhante, era permeada, por enormes sermões bíblicos, que até hoje não consigo ver de onde era tirada tanta barbaridade, para nos incutir e a obrigação de ir à missa, de rezar o terço diariamente, caso não fosse rezado com a devida atenção, teria que ficar de joelhos em cima de grãos de milho e de braços abertos. Esse tal terço demora em media uma hora, imagine uma criança de oito nove anos de joelhos em cima de grãos de milho com os braços abertos por uma hora inteira, e se abaixasse um pouco que fosse os braços, levava uma surra de cedem, que uma corda feita do pelo do rabo dos cavalos. Quando me lembro da minha infância, fico tentada a pensar, que nenhum filme de horror se compara ao que foi vivido por mim e por meus irmãos, principalmente nós mulheres que somos as mais velhas. Lembrar do sadismo do meu pai, da alegria genuína que ele expressava, quando nos via sofrer, mesmo depois de adultos, é algo que ainda hoje me faz muito mal. Lembrar que ele era um homem que assistia a duas missas diárias, que rezada uns três terços diariamente, e que passava o restante do seu tempo lendo a bíblia, e mesmo assim tinha um imenso prazer em ver o sofrimento do outro, em ver o sofrimento dos seus filhos, ele se deliciava quando algo de errado nos acontecia. Não tem como não sentir a dor novamente. Lembrar que a minha mãe nunca fez nada para ajudar nenhum filho, mas que não perde nenhuma oportunidade, para puxar o tapete de qualquer um de nós até hoje, também é algo que me faz muito mal. Como nós sobrevivemos a tudo isso?Isso sim foi um verdadeiro milagre!
Talvez por isso eu tenha resistido por tanto tempo, a olhar para toda essa podridão. Talvez por isso tenha sido mais fácil, para mim, continuar, me martirizando, fugindo, porque verdadeiramente, olhar para tudo isso me dá ânsia de vomito, na verdade há dois anos quando olhei pela primeira vez, passei muito mal, mental, física, e espiritualmente, agora pensei que já tinha superado, mas vejo que ainda não. Ver tudo isso não é nada fácil. Mas é necessário, e absolutamente necessário se eu quiser realmente me curar, hoje tenho plena consciência disso.
A vergonha que senti durante toda a minha infância de tudo isso, de ser diferente de todos que eu conhecia as humilhações porque passamos. Não tenho ainda palavras para expressá-la. Quando me lembro da minha irmã abaixo de mim, meu Deus, minha mãe nunca ergueu um dedo para defendê-la, não que ela tivesse feito isso por mim, por qualquer outro filho, mais essa minha irmã ela tinha que te-la defendido, mais não ela se sentava com poses de senhora e ficava olhando... Ainda dói, dói, muito saber que tudo isso realmente aconteceu comigo.
Foi assim que aprendi a esperar ser espancada, a acreditar que merecia ser torturada, ser humilhada. Aprendi que eu não merecia nada de bom, nada de puro, que a alegria e a felicidade não era para mim. Acreditei que para mim não existia outra forma de vida, que eu não era alguém para dar certo. Que o problema era eu. Eu não tinha problemas, eu era os problemas. A vergonha, o medo, a humilhação e o desejo intenso de modificar esse quadro de mudar minha vida, de não quere que meus filhos tivessem esse tipo de vida. A vontade de poder entrar em um lugar de cabeça erguida, de não me sentir mais um nada, de me sentir acolhida, desejada, esperada, amada, e necessária, foi o que me levou a procurar ajuda.
Hoje tenho consciência que eu sempre busquei, toda a humilhação, todo o espancamento, toda agressão tanto física como psicológica que sofri, foi eu que fui responsável, quando me anulei, quando não me posicionei, quando esperei inconscientemente e muitas vezes conscientemente por tudo isso.
Sair de uma situação dessas não é fácil, não e rápido, não é indolor.
A primeira coisa que temos que entender é que a grande mentira é que somos incapazes de agüentar uma dor muito intensa e forte, e que também somos incapazes de agüentar o maximo do prazer, essa é a mentira do nosso eu inferior nos diz a toda hora. Nós podemos sim agüentar tanto a pior dor, como o maximo do prazer. Hoje eu sou prova viva disso. Tudo o que tenho exposto aqui eu vivi, eu tive a coragem de encarar e assumir que vivi, dói com certeza dói, mais eu estou aqui mais inteira do que nunca, do quando não tinha coragem para olhar para toda essa coisa podre dentro de mim.
Fique na luz e na paz
Fátima Jacinto
Uma Mulher.


publicado por araretamaumamulher às 14:00 | link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Ana Lucia Nicolau a 29 de Outubro de 2009 às 09:06
acho que se você mudar seu modo de pensar, as coisas mudarão...
abs


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