Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010
Segundo as pesquisas realizadas pelo Georgia Commission on Family Violence, sediado em Atlanta, EUA, a agressão doméstica é mais comum do que se pensava. De acordo com dados do FBI, uma mulher é espancada a cada quinze segundos nos EUA.
O trabalho deste grupo aponta ainda alguns mitos recorrentes na abordagem desta problemática. Por exemplo, a violência doméstica (VD) não ocorre somente com pessoas pobres, de baixo nível educacional, em famílias pequenas e “disfuncionais”. A idéia, expressa na frase: “Nunca aconteceu com ninguém que eu conheça”, cai por terra, quando se verifica que existem médicos, ministros, psicólogos e professores que batem em suas esposas. A agressão existe de igual modo em famílias ricas, brancas, cultas e respeitáveis. Segundo os dados cerca de metade dos casais nos EUA experimentam violência em algum momento de sua vida em comum.
Um outro aspecto importante a ser levantado é no que concerne ao entendimento da agressão como uma disputa entre os cônjuges, nos sábados à noite, onde um bate no outro, perturbando os vizinhos. Em verdade, nas “disputas” domésticas, um parceiro é espancado, intimidado e aterrorizado pelo outro. Não é um combate mútuo ou duas pessoas em luta. È uma pessoa que domina e controla a outra, e, em quase 95% dos casos, o homem é o perpetrador da VD.
Este fato é desconfortável para muitos, mas não menos verdadeiro por causa deste desconforto. Para acabar com a violência doméstica deveríamos pesquisar porque é usualmente o homem que é violento nos relacionamentos. Poderíamos, a este propósito, examinar a permissão histórica e legal que aos homens tem sido dada para ser violentos em geral, e para ser, especificamente, violentos com as suas esposas e filhos. Existem raros casos de mulheres que batem em seus companheiros. Violência existem também em relacionamentos entre gays e entre lésbicas. Sobreviventes de abuso podem ouvir que sua situação é rara, ou que estão vivendo em uma relação inaceitável socialmente, mas isto não torna os fatos sobre a violência menos sérios e válidos.
Na abordagem utilizada pelos especialistas, quando existe violência na família todos os membros da família estão participando na dinâmica, mas somente o agressor é habilitado a parar a violência. Muitas mulheres que são espancadas recebem numerosas orientações para mudar seu comportamento, na esperança de que isto vá resolver. Mas isto não acontece. Mudanças nos membros da família não influenciam o agressor a ser menos violento.
Pois a VD não é usualmente um evento único, um incidente isolado. O espancamento é uma parceria, um reino de força e terror. Uma vez que a violência começa em uma relação, tende a piorar e se tornar mais freqüente com o tempo. O abuso não é um único ataque físico. É um determinado número de táticas, como por exemplo, a intimidação, a ameaça, a privação econômica, a agressão psicológica e sexual, que são usadas repetidamente. A violência física é mais uma destas táticas. Alguns especialistas tem, inclusive, comparado os métodos usados pelo agressor com aqueles que são utilizados por terroristas para subjugar seus reféns.
Outro mito a ser combatido é o que generaliza a máximo de que os agressores são loucos. De fato, apenas uma percentagem extremamente pequena de agressores tem comprometimento a nível mental. A vasta maioria é totalmente normal, e geralmente charmosos, persuasivos e racionais. A maior diferença entre eles e os outros é que eles usam a força e a intimidação para controlar suas companheiras. A agressão é a sua escolha comportamental.
Um mito absurdo, imortalizado pelo escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, que afirmava que “toda mulher gosta de apanhar, é o que conclui que as mulheres espancadas sempre mantém seus relacionamentos. O que verificamos é que muitas mulheres espancadas tentam deixar o agressor pelo menos uma vez ou permanentemente, e mesmo diante dos obstáculos, tem sucesso em construir uma vida livre de violência.
Claro que existem muitas razões para a mulher agredida ficar na relação. Entretanto, gostar de ser abusada não é uma delas. Muitas mulheres ficam porque elas são emocionalmente dependentes de seus agressores, ou não tem trabalho, dinheiro, e nem um lugar para ir. Elas podem ficar embaraçadas em admitir que tem sido espancadas, ou que ao menos tem problemas na relação. Algumas ficam por questões religiosas, ou por ele ser o pai das crianças, outras amam seus companheiros ou sentem que eles não podem viver sem elas. Diante disso, é um verdadeiro milagre que tantas vítimas consigam sair e ficar sem a agressão como parte de suas vidas.
Quando a mulher o abandona ou tenta fazê-lo, o agressor aumenta drasticamente sua violência, porque é necessário para ele reafirmar o controle e autoridade. As mulheres vítimas de VD são, geralmente, muito ativas e buscam ajuda no seu próprio interesse. O que costuma falhar em seus esforços decorrer do fato do agressor continuar a agir e as instituições não cumprirem seu papel de proteção.
Por exemplo, a polícia muitas vezes reluta em responder aos casos de violência doméstica, ou intervir no que considera “algo privado”. A lei reforça quase sempre esta tendência ao requerer, por exemplo, a um dos parceiros que deixe temporariamente a casa, até que as coisas se acalmem, deixando a mulher vulnerável à violência.
Alguns padres, pastores e rabinos dão suporte as mulheres agredidas no lar. Outros ignoram o abuso, não dão suporte, ou dão apoio ativamente ao controle do agressor sob a sua parceira.
A própria comunidade muitas vezes espera que a vítima denuncie o espancamento como crime. Eles esperam que a mulher pare a violência, e repetidamente analisam suas motivações para não deixar o agressor, ao invés de se perguntar porque o agressor continua a agredi-la, e porque a comunidade permite que isso continue.
Não basta culpar, por exemplo, o abuso de drogas e álcool. Os agressores usam o álcool e as drogas como justificativa, e como uma maneira de por a responsabilidade pela sua violência em algo fora deles. É verdade que existe uma correlação de mais de 50% entre abuso destas substâncias e violência doméstica, mas não uma relação causal. Parar com a bebida ou uso de drogas não vai parar com a violência. Algumas vezes a vítima também abusa do álcool e das drogas (incluindo as utilizadas sob prescrição médica) como um modo inconsciente de cooperar com a violência na sua relação. O companheiro costuma alegar que bate nela por ela viver bêbada ou “alta”, e que queria “dar uma lição a ela”. O tratamento do abuso de substâncias somente será útil para a vítima quando ela estiver a salvo e não mais correr o risco de ser agredida.
Também não é o estresse que causa a violência doméstica. Muitas pessoas que vivem sob estresse não agridem seus parceiros. Os próprios agressores, quando sob estresse no trabalho, não atacam seus colegas ou seus chefes. Homens que agridem não são violentos com ninguém mais além de sua própria família. Eles não o fazem porque eles não possam controlar eles mesmos ou porque eles tem “baixo controle dos impulsos”. Muito pelo contrário, eles tem controle suficiente par escolher o alvo das agressões. Eles batem, por exemplo, onde as marcas ficarão ocultas sob a roupa. Cerca de 60% de mulheres espancadas o são enquanto estão grávidas, quase sempre agredidas na altura do estômago. Muitas agressões duram horas e muitas são planejadas.
Além da agressão física, a violência sexual também é recorrente dentro de casa. Em torno de 60%, e provavelmente todas as mulheres que sofrem agressão física, são também sexualmente abusadas pelos companheiros. Este abuso inclui o sexo forçado em frente as crianças, o sexo feito com animais e o sexo feito em grupo e ligado à prostituição. De modo algum o violador é sempre um completo estranho.
Em torno de 70% dos agressores abusam também dos filhos, fisicamente ou sexualmente. As crianças sofrem por presenciar seu pai batendo na sua mãe. Os agressores não são quase sempre bons pais, que devem partilhar da custódia de seus filhos.
As mulheres que sofrem agressão tem profunda convicção de que podem sofrer uma agressão mais severa ou mesmo ser mortas, caso tentem abandonar a relação com o agressor. Agressores deliberadamente deixam suas parceiras isoladas, e as impedem de trabalhar, de ter oportunidade de educação e chances profissionais. Isto combinado com as desigualdades de oportunidades para homens e mulheres e com a falta de suporte para cuidar dos filhos pequenos, torna excruciante a decisão de sair. Não é, de modo algum, algo simples a saída da mulher de sua casa.
Alguns agressores alegam que vivem uma relação ruim. Uma relação à dois pode ser muito estressante, e a comunicação pode ser pobre. Podem existir problemas financeiros, problemas com sexo e com os demais parentes. Mas, a violência não é resultado destes problemas. Outros casais, apesar de vivenciarem tantos ou maiores problemas, não vivenciam a violência doméstica. Em geral, é a relação que fica ruim como resultado da violência e abuso.
Agressores sempre afirmam que a violência começa por causa da parceira. “Ela me fez fazer isto”. “Ela provocou”. “Ela procurou por isto”. Algumas vezes as próprias vítimas acreditam nisso. Pensam que, se forem submissas com os agressores, eles vão parar com o abuso. Mas não é assim que ocorre. Manter a casa limpa e as crianças quietas, fazer um bom jantar não vai diminuir a violência doméstica. O agressor simplesmente acha outra razão para bater. A vítima não pode parar com a violência. Não depende do que ela faz ou deixa de fazer. Ela pode postergar ou aumentar a violência doméstica, mas só o agressor pode parar definitivamente com ela. E ainda assim não há garantias, pois o agressor pode encontrá-la novamente.
Todavia, ao contrário do que possa parecer, existem algumas opções para as vítimas de VD. A primeira delas é não fazer nada. Muitas mulheres escolhem esta opção com medo de fazer algo mais, ou porque não tem esperança de conseguir. Uma outra opção é escolher ficar e suportar a situação, tentando fazer modificações, como por exemplo, fazer as crianças entender mas não aceitar a situação. Se ela escolhe uma destas situações ela pode voltar a ser agredida. Uma outra é conseguir ajuda para salvar a relação. Ela pode, por exemplo, procurar grupos de apoio e aconselhamento, onde, algumas vezes, o próprio agressor também começa a ser atendido em um programa educacional ou terapêutico. Mas, esta opção também traz riscos. Alguns agressores buscam evitar deste modo a prisão ou tentam manter a esposa em casa, mas não tem a intenção de mudar seu comportamento. Outros intimidam suas esposas a dizer ao terapeuta que a relação vai bem, que a violência doméstica parou, quando isto não é a verdade.
Uma outra saída é terminar a relação e tentar construir uma nova vida sem violência. Esta é uma opção dificílima para a mulher. Significa deixar uma relação familiar, ter responsabilidade sozinha por seu novo lar, possivelmente tendo de mudar de endereço, conseguir um trabalho (ou mudar de emprego) e, as vezes, colocar as crianças em uma nova escola. Muitas mulheres têm na violência doméstica uma razão inicial para começar uma nova vida, onde elas possam ter liberdade para explorar suas opções e decidir quais os aspectos que querer desenvolver.
Um último fato é que os agressores não param por si mesmos. Em muitos casos, após a promessa de parar com o abuso, a violência aumenta. O abuso só termina quando a vítima deixa a relação ou o agressor participa de um programa de Intervenção em Abuso qualificado. E ainda assim, não há garantia de que a violência tenha fim.


publicado por araretamaumamulher às 10:35 | link do post | comentar | favorito

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