Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
O que os meios de comunicação veiculam, podem ser canais para a disseminação dos preconceitos, conteúdos machistas, preconceituosos, racistas, programas de humor, com piadinhas sobre “gays”. Na internet também, há muitos sites que veiculam conteúdos preconceituosos. É importante notar que tais veiculações não criam uma violência a mais, para além do que já existe nessa sociedade, embora eles sirvam para repetir ou reforçar certos estereótipos. A TV reforça a idéia de que as mulheres devem ser lindas, objeto sexual, reforçam preconceitos raciais, mas isso não está além do que já acontece em nossa sociedade.
No entanto, a mídia também não é simples reflexo da sociedade porque ela, ao final, escolhe o que veicular, a grande mídia comercial, por exemplo, não veicula coisas muito alternativas, não há espaços ou há pouco espaço para discursos dissonantes.
A internet tem uma particularidade. A internet tem maiores possibilidades de combater a Violência contra a Mulher do que a grande mídia comercial. Mas há que se considerar que nem todos têm acesso à internet. Classes mais baixas têm acesso na escola, no trabalho, na lan house, espaços culturais, há um recorte de classe bem significativo para ter internet e computador em casa. Mas de fato para quem tem certo nível educacional e tem acesso à internet, ela pode ser uma boa fonte de informações. Por exemplo, se você quer descobrir onde encontrar centros de atendimento para violência, a internet permite maior acesso à informação e nesse sentido talvez ela possa promover certo combate contra o preconceito, a violência.
As mulheres buscam muita ajuda antes de chegar à delegacia. Então ter sites que indiquem caminhos, que mostrem as leis, isso é um recurso bastante usado. Às vezes as mulheres não querem que o marido seja preso, mas buscam ajuda e nesse sentido a internet pode ser extremamente útil. Embora seja preciso ter sempre atenção à limitação da internet, é possível dizer que para pessoas de classe média e classe média alta a internet tornou-se uma fonte de informação importante.
A internet também veicula conteúdos violentos, opressivos, preconceituosos. A mídia não cria nem estimula a violência, normalmente ela pode favorecer certos estereótipos, certas violências, as diversas mídias reproduzem experiências que as pessoas vivem nessa sociedade. A violência está em todos os lugares e a mídia reflete isso. Especificamente a VCM (companheiro que bate, ameaça, aterroriza). Acho que as mídias fazem pouco para mudar esse quadro, mas a não criam isso.
A mídia apresenta as construções de gênero com um enfoque de muita violência, no sentido da criação de preconceitos e estereótipos (“Loira burra”, “mulher que gosta de apanhar”, “a bichinha” que merece ser oprimida e ridicularizada”) então nesse sentido a mídia é parte dessa violência de gênero na sociedade.
O retrato da violência doméstica nas novelas não surge de forma politizada. Então o tema, quando aparece nas novelas, é mostrado como um homem que é um “louco”, “psicopata” e bate em uma mulher que é uma vítima. Mas a questão não é politizada e nem mostrada como uma situação que é, na verdade, bastante comum e que atinge não apenas pessoas “loucas” e “psicopatas”. A novela mostra o problema como se isso acontecesse esporadicamente, e não a realidade que a cada três minutos uma mulher é espancada no mundo se for contar as que sofrem violência emocional e sexual, isso começa dar menos de um minuto. É um drama aterrorizante, e nem por isso consegue seu real papel como drama na mídia.
A mídia esquece que a violência que ela mostra a violência na rua, é uma amplificação da violência no lar. Quando conseguirmos verdadeiramente conscientizar isso, ai sim vai fazer um grande trabalho contra a violência doméstica. Os casos de violência doméstica dizem respeito a todos. Deixaram de ser assunto privado, passaram a serem considerados crimes públicos, um atentado aos direitos humanos. Não é um acaso de uma determinada família, de certa localidade ou de apenas um setor da sociedade. Esse tipo de crime não pode ser notícia para uma seção de “ocorrências” simplesmente. O seu tratamento cabe nas seções de sociedade e requer enquadramento sombrio. Necessitam de investigação, intensificação e certas doses de exploração na mídia para atentar a sociedade. O que leva o ser humano a praticar crimes com extrema violência e com requintes de crueldade? O que terá a vítima feito para merecer tanto ódio? Matar "por amor" está na moda? Os crimes foram cometidos por quais motivos? São perguntas cujas respostas ainda permanecem ocultas. Diante de tamanha perplexidade de casos abusivos e extremamente desumanos, os noticiários se abastecem de informações que ora informam a sociedade ora se desmentem. Mas neste caso, que envolve vidas de crianças, fortemente midiatizado, as emoções afloram, o sentimento de indignação reflete a ira de não suportar tamanha crueldade. O grande desejo é que se investiguem, apurem-se e punam-se os culpados. É um sentimento que alcança a todos, porque receberam grande cobertura da mídia nacional.
Apesar dos incontáveis casos de violência doméstica contra a mulher e do quanto se precisou avançar até a sanção da Lei Maria da Penha (nº 11.340, de 2006) para coerção dessa prática, parte da mídia se comporta como se apoiasse a agressão física em situações de "legítima defesa da honra".
Não basta demonstrar, nas entrelinhas, satisfação com o cidadão que reage ao adultério (e não importa que seja na ficção; há gente que transpõe certos atos para a realidade). É preciso tripudiar de quem apanha como parece ocorrer na expressão pela qual o homem traído "acaba com a raça dela".
Ao planejar a transmissão de uma cena de violência em rede nacional e numa novela que pode ser vista por crianças a partir dos 12 anos (e tem meninos e meninas ainda mais novos no elenco), parece ignorar os termos de algo que tanto pareceu apoiar em seus noticiários: justamente, a Lei Maria da Penha. E, por tabela, a Constituição brasileira.
No capítulo que trata das medidas integradas de prevenção à violência doméstica, o artigo 8º da lei expressa que "a política pública que visa coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher far-se-á por meio de um conjunto articulado de ações da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e de ações não-governamentais". No inciso III desse artigo, consta como diretriz dessa política "o respeito, nos meios de comunicação social, dos valores éticos e sociais da pessoa e da família, de forma a coibir os papéis estereotipados que legitimem ou exacerbem a violência doméstica e familiar, de acordo com o estabelecido no inciso III do art. 1º, no inciso IV do art. 3º e no inciso IV do art. 221 da Constituição Federal".
Justo.
Afinal, conforme aponta o artigo 6º da Lei 11.340, "a violência doméstica e familiar contra a mulher constitui uma das formas de violação dos direitos humanos".
Ao se considerar a mídia como transmissora de idéias e formadora de opinião, ganha importância o fato de que parte da sociedade tem em mente, de maneira equivocada, que certas coisas só se resolvem no tapa.
Agora, o que acontece, provavelmente, é que há um estereótipo social para os homens que os autoriza a se sentirem na posse de suas mulheres, no sentido de que eles podem bater nelas quando estão nervosos e de que isso é aceitável, “porque estão com a cabeça quente”, em uma situação de resolução de conflitos. Nessa situação, a mulher aparece em um lugar de vítima sem saída, ela não surge como uma pessoa que têm direitos, que essa é uma situação que acomete outras mulheres etc.
Há uma valorização da masculinidade, que é de uma masculinidade violenta. A masculinidade hegemônica é violenta (filmes de Hollywood), promove-se a idéia de uma masculinidade viril identificada com a violência. Promoção não apenas de estereótipos femininos ou de gay, mas de masculino. Esse tipo de estereótipo de masculinidade surge mais em filmes desse tipo do que em novelas, mas é ainda um discurso que permeia os conteúdos de mídia de forma recorrente.
No “Caso Eloá”, muito veiculado pela mídia, pouco se discutiu o fato de já ser uma relação violenta. Nessas situações de violência é difícil que a mulher seja tratada como sujeito de direitos, isso que é incômodo. E no caso, há um discurso familharista, que sempre promove alguém perder direitos, “vamos manter a família a qualquer custo”, esse discurso tende a ocultar os conflitos e as violências que surgem na família e em geral quem sai perdendo sempre é a mulher.
A publicidade opera muito com a coisa do desejo, sexualiza muito a mulher, as crianças, as figuras femininas. Para promover um produto opera na lógica do desejo. Tem uma lógica um pouco particular e às vezes usa o preconceito deslavadamente, mas é menos direto. Na vertente da cultura brasileira, explora-se a idéia da “mulata sensual” e as mulheres negras são retratadas como hipersexualizadas. O retrato da mulher negra no Brasil em geral é aquela que “mostra o peito”, “mostra a bunda”, “está louca para dar”, com uma sexualidade animalesca e então reforça um preconceito horroroso. Durante muito tempo havia a “globeleza”, uma mulata nua que aparecia em épocas de carnaval, reforçando este estereótipo.
Há muitos preconceitos nos programas de outras emissoras, para além da Globo, que exploram sentimentos e humilham os participantes, exploram o sofrimento e a ignorância das pessoas.
Na TV em geral, novelas etc., há um apelo de sexualização exagerado, não é à toa que há discursos super moralizantes. Mas isso é um pouco traço da sociedade brasileira, essa valorização da sexualidade etc. e concomitantemente discursos conservadores que buscam estabelecer uma oposição entre essa sexualidade mais “animalesca” e a sexualidade “desejada” ou moralmente ideal.
É também uma forma de se estabelecer ou reforçar códigos de conduta de uma sociedade. Nesse sentido, pode-se dizer que a própria construção dos estereótipos já é uma violência simbólica. Valorizar esse estereótipo de masculinidade é também uma violência contra os homens, porque a maioria dos homens não se enquadra neste perfil. Então isso gera uma frustração muito grande.
Um pouco da violência doméstica vem do sentimento de frustração de não dar conta de cumprir com esse padrão de masculinidade hegemônica. Então não se consegue falar de violência contra a mulher sem falar da violência simbólica, da violência de gênero, são muitas as causas, não há uma causa e um efeito. Mas de fato, o sentimento de não cumprir com esse papel hegemônico de masculinidade gera muita frustração e daí o homem segue para esse lugar de violência onde ele se sente mais seguro, buscando a resolução dos conflitos de modo violento


publicado por araretamaumamulher às 09:43 | link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Rafael a 26 de Novembro de 2009 às 11:01
Concordo com muita coisa que foi dita, mas um pequeno detalhe vale ser ressaltado. A mídia explora tudo aquilo que a sociedade busca. Se hoje vemos a depravação sexual na televisão, a mulher sendo usada como um objeto na mídia, a família sendo degradada, inversão de valores e princípios, tudo isso ocorre porque a sociedade se omite e aceita esse tipo de coisa invandindo suas casas por meio da TV, do rádio, jornais e revistas, internet.
Ninguém quer deixar de ver cenas picantes na novela das 8 não é verdade?! Infelizmente o povo gosta e busca esse tipo de coisa.
As mulheres não se preservam, pelo contrário, aceitam certos tipos de "trabalhos" somente para aparecerem, seja na televisão, sejam em revistas masculinas, quando na verdade estão colaborando para a ruína do próprio gênero. Por isso muitas são vistas como objetos!
Podemos até viver em uma sociedade machista, mas com certeza, boa parte desse machismo é alimentado pela postura de muitas mulheres, que preferem se vender, a manter o respeito próprio.


Comentar post

mais sobre mim
Maio 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
13
14
15

16
17
18
22

23
25
26
27
28
29

30
31


posts recentes

Característicos da violên...

As situações de violência...

Fatores que contribuem pa...

As (in) visíveis seqüelas...

As consequencias das agre...

Nunca vou compreender ist...

eu tenho uma dor dentro d...

Ainda me lembro quando es...

Ser mãe é padecer no para...

Mulheres, cuidando da cas...

arquivos

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

tags

a desvalorização da mulher

a morte de um filho

a mulher e acultura da desvalorização

agressão da mulher

agressão psicologica

agressor

amor

anorexia

aprendizado

baixa auto estima

baixa auto estima origem da dor.

baixa auto-estima

beleza

bulimia

circulo vicioso.

como agir em caso de violência

comotratar a violência

comportamento machista

consentimento silencioso.

criança ferida

cristianismo e o preconceito ao feminino

crueldade na familia

culpa

denuncia

depressão

desejo sexual

deus

dia da mulher

direitos humanos

direitos humanos para a mulher vitima.

dor

dor humilhação

educação

educação de filhos

emoções

envelhecer

falta de amor

familia

familia desestruturada.

feminismo

filho

gordura

humilhação

infância

infancia de dor

inveja

lar

lei maria da penha

luto

machismo

mãe

manipulação.

máscara

medo

medos

menopausa

mentira

mídia

mídia especializada

mitos verdades

morte

morte de um filho

morte prematura

mulher

mulheres

mulheres violentadas.

oração

orgulho

patriarcado

perda

perda de um filho

perdão

perversão

preconceito

rede social

relacionamentos

sagrado

silencio

silêncio

sociedade

sociedade machista

solidão

sonhos

suicidio

velhice

verdade

vergonha

violência

violencia

violência aceita

violência contra a mulher

violência da mulher

violencia da mulher

violência doméstica

violência emocional

violencia emocional

violência psicologica

violência sexual

vitima

vitimas de violencia.

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds