Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
Agora apenas me interrogo: Por quê tudo isto?O que eu poderia ter feito para ter evitado este desenlace? Onde teria eu falhado? Como é possível o meu filho estar morto?
A morte de um filho deixa sempre, como primeiro sentimento, instintivo, de uma fêmea pela sua cria, a convicção que talvez não a tivesse protegido como deveria, que naquele instante supremo, definitivo, havia falhado irremediavelmente. Lembro-me daquele dia fatal, e do que poderia ter acontecido em alternativa, as razões que poderiam ter sido invocadas para servir de escusa à sua ida. Nenhuma. Tanta coisa poderia ter sido feita e eu não fiz nenhuma. Teria protegido o meu filho como era seu dever? Provavelmente não e ele era um ser tão pequeno ainda, tão inocente, tão frágil, tão dependente do meu apoio maternal.
Há uma canção dos Delfins cuja letra afirma «quando alguém nasce, nasce selvagem, não é de ninguém». Quem escreveu esta letra nunca cuidou de um filho, nunca lhe deu o ser, nunca o transportou no seu ventre, nunca o viu nascer, nunca lhe deu o amor, a ternura e o carinho que esses seres tão dependentes carecem em absoluto para sobreviverem. Quem escreveu essa letra não sabe o que é uma criança. Quando alguém nasce, se não for de ninguém, não consegue sobreviver muitas horas. Um bebe é completamente dependente, nem é selvagem nem é livre: precisa desesperadamente de alguém que cuide dele, que o acarinhe e o proteja
O amor é eterno como as estrelas. Não sabemos nada das estrelas, como nada sabemos do amor. Mas muitas vezes encontramos no brilho distante de uma estrela a coragem necessária para atravessar noites de excessiva treva. Sussurramos desejos às estrelas cadentes e confiamos as lágrimas à beleza de um céu estrelado.
Precisamos da tristeza para aprender a olhar para o céu.
Não falo do céu metafísico, do céu povoado de deuses vingadores, desse céu demasiado terreno que, ao longo dos séculos, tem construído uma história de horror e guerra.
Não falo do céu dos fiéis e infiéis, do céu que ergue fogueiras e cadafalsos, que inventa infernos e torturas, que se despenha em aviões sobre a humanidade.
Falo do céu que existe sobre as nossas cabeças demasiado ocupadas a esgravatar a terra. Das estrelas que vivem e morrem sem que o saibamos, e que nos iluminam, se soubermos olhar para elas, como se fossem sempre a mesma, a estrela inicial.
É assim a eternidade do amor - indiferente à vida e à morte, capaz de sobreviver à pequena cronologia da vida Capaz, acima de tudo, de fazer da vidinha presunçosa em que tantas vezes nos enredamos, uma vida verdadeira, votada à única coisa que interessa - o amor.
Temos o privilégio de nos sabermos mortais. O que fazemos desse privilégio? Em geral, fugimos dele, apavorados.
Refugiamo-nos nas aparências do tempo, fazemos contas à vida A morte de um jovem é uma afronta a essa nossa contabilidade estéril.
As nossas vidas seriam muito diferentes, se acordássemos para cada dia como se fosse o único. Quantas vezes repetimos: "Temos tempo"? Quantas horas ocupamos a complicar as vidas dos outros, em vez de simplificarmos a nossa? Temos medo. O medo é o maior assassino; leva-nos a subterfúgios infra-humanos.
O medo criou os deuses do extermínio e da vingança, porque a sua natureza covarde leva o a viver de desculpas e a sacudir a responsabilidade. Quantas pessoas não se dizem "demasiado sensíveis" para ir a um hospital e acarinhar um doente terminal, ou para ir a um velório abraçar os que acabaram de perder uma parte de si?
A doença e a morte confrontam-nos com a mortal mesquinhez desta "sensibilidade" - e convocam-nos para uma outra forma de vida, eterna como a valentia e a bondade humanas, que são uma e a mesma coisa.
Repetimos que a fé é, face à morte, o maior lenitivo. Mas que é a fé verdadeira senão o absoluto do amor?
O amor é o verdadeiro rosto de Deus. Um agnóstico pode encontrar esse rosto em cada ser humano.
O amor, vi-o, cintilante, nos dedos de uma mulher que acariciava o seu filho, no caixão, como se de novo o acariciasse no berço, enquanto dormia. Não era uma despedida; era uma promessa de cumplicidade inesgotável, o que os dedos desta mãe desenhavam, sobre o rosto e as mãos do filho morto.
De quando em quando, interrompia as carícias para abraçar a outra filha ou algum familiar que precisasse dessa força que só o amor conhece.
E essa força iluminava a capela, o caixão, o silêncio, e cada uma das pessoas que chegavam para a cerimônia da despedida. Essa força acendeu o lugar mais escuro do meu coração, o lugar onde morava o medo mais secreto e tenebroso: o medo da morte de um filho.
Nas carícias dessa mulher infinitamente triste e serena sobre o seu filho morto, nas lágrimas silenciosas dessa mulher existe a luz radiosa do amor que não morre - antes se fortalece e propaga ao mundo.
Os filhos que ela tivera, os vivos e os desaparecidos, moram nela, como uma força suplementar que as leva a melhorar o mundo.
Não há outra razão para ter filhos. Nem há que temer perdê-los, porque o amor não se perde, nem envelhece, nem morre. Basta olhar para as estrelas.
A morte de um filho é pior do que um câncer. A morte de um filho não tem cura, não tem tratamento, não dá pra amenizar a dor. A morte de um filho faz sangrar o coração até o fim, e o fim não chega nunca, cada noite é pior que a anterior. A morte de um filho é pior que a própria morte, muito pior, porque faz a gente morrer um pouco todos os dias. A morte de um filho enlouquece de dor sem tirar a sanidade. A morte de um filho... Só se compara à morte de um filho.


publicado por araretamaumamulher às 09:29 | link do post | comentar | favorito

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