Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009
“Quando a mulher denuncia, ela está rompendo não só com a relação de violência, e sim com toda a sociedade. A mulher precisa acreditar que é um sujeito de poder e que através das políticas públicas pode minimizar a violência”.
“Vivemos numa sociedade patriarcal que naturaliza a dominação masculina e a violência contra a mulher. Isso é um fenômeno social milenar, desde o surgimento das primeiras polis, com a divisão social do trabalho, e depois com a consolidação do capitalismo, sistema no quais as diferenças entre homens e mulheres se tornaram desigualdades”, explicou Maria Elisa.
A sociedade está acostumada com essa formação patriarcal e machista. “O grande problema é como são construídas as relações sociais a partir das relações de gênero. Quando nasce um menino, por exemplo, dizemos ‘meu garotão’, ‘pegador’. Já com as meninas, ‘minha princesa’. Quando um filho apanha dos colegas, o pai incentiva a violência, dizendo: ‘retruca, vai lá e acaba com ele’. Com as meninas: ‘papai vai tomar alguma providência’. Quando a mulher se separa do marido, é chamada de ex-mulher. E quando briga com ele e procura as amigas elas dizem ‘ruim com ele, pior sem’ ou ‘faz uma comidinha que ele gosta que fica tudo bem’.”
Muitas mulheres sentem vergonha de denunciar a violência, primeiro por medo, depois pelo atendimento que elas recebem em delegacias comuns, onde os funcionários não estão preparados para atender esse tipo de denúncia.
Criada em agosto de 2006, a lei Maria da Penha, combate os crimes de violência doméstica e familiar contra a mulher, mas ainda encontra diversos entraves no Poder Judiciário e entre os agentes de segurança pública brasileiros para ser plenamente implementada.
“A Lei Maria da Penha foi fruto dos movimentos feministas para a contenção do sistema patriarcal e da cultura machista. O objetivo é a desconstrução da sociedade e mostrar para a mulher o poder de transformação”, disse a defensora pública Amanda Schaefer, que também participou do debate.
De acordo com o balanço de dois anos da Lei Maria da Penha, divulgado no começo deste ano, existem 150.532 processos referentes à lei em tramitação nos tribunais brasileiros. Cerca de 2% deles resultaram em condenação de prisão, 41,9 mil processos geraram ações penais e 19,8 mil resultaram em ações cíveis.
A maior parte das ações protocoladas na Justiça trata de pedidos de proteção. Quase 20 mil mulheres conseguiram esse direito. Em pelo menos 85% dos tribunais brasileiros já foi instalada Vara ou Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher.
“Para que a lei seja cumprida, é preciso que as mulheres tenham conhecimento de onde podem ser atendidas e denunciem seus agressores. Muitas não denunciam por não saber como ou por não terem o conhecimento de fato da lei", destacou a defensora pública.
Dados recentes da Organização Mundial da Saúde mostram que 60% das vítimas de violência sexual no mundo são mulheres jovens. Nos EUA, a cada 6 minutos, uma mulher sofre algum tipo de violência. Na América Latina, de 30 a 60% das mulheres foram violentadas por parentes.
No Brasil, pesquisas indicam que 53 a 70% dos casos de violência, excetuando-se o assédio sexual, acontecem em casa, vindas de maridos ou parceiros.

Em 2004, a Anistia Internacional divulgou um relatório onde estimava que um bilhão de mulheres, uma em cada três do planeta, já foram estupradas, espancadas ou sofreram algum outro tipo de violência. E ainda que 20% das mulheres, ou uma em cada cinco, será vítima ou sofrerá pelo menos uma tentativa de estupro durante a sua vida.

A verdadeira tolerância e o total descaso com que são tratadas essas situações, apesar de serem cotidianas e de atingirem metade da população mundial, cerca de três bilhões de pessoas, são completos, não apenas no Brasil, mas no mundo.

O que mostra claramente que a violência contra a mulher ultrapassa os limites culturais, como muitos costumam alegar na tentativa de mascarar o problema. Ela é parte da opressão do Estado sobre as diferentes camadas de explorados.


A violência contra a mulher é parte fundamental para a manutenção desse regime de dominação e exploração. Um exemplo disso é que os EUA estão no topo da lista de violência. Não por acaso, estão também entre os países mais repressivos do mundo, em todos os sentidos: perseguição a minorias raciais, maior população carcerária do planeta, repressão aos imigrantes, à esquerda, às organizações religiosas etc., tudo isso sob a cobertura da maior democrática do planeta.

Para uma luta vitoriosa contra a violência às mulheres, é necessário entender que o fundamento da opressão da mulher é a sociedade capitalista e o Estado burguês, que oprime a todas as camadas sociais, a começar pela classe operária para garantir a exploração do homem pelo homem, alimentar a fé na propriedade privada, e em última escala, na mulher como propriedade do homem.

Nesse esquema, em escala decrescente se incluem todos os setores oprimidos, jovens, negros, mulheres, até chegar à principal vítima de todo esse sistema, que são as mulheres negras jovens. Ainda mais humilhadas e inferiorizadas, por sua condição, submetidas ao desemprego ou subemprego; a dependência econômica do marido, o controle do Estado, do casamento e da religião – que procura controlar até mesmo o seu corpo – que lucra com a prostituição e a exploração sexual.

É por tudo isso que a luta contra a opressão, contra a violência à mulher, apenas através da transformação dos hábitos culturais e da legislação parcial não será nunca capaz de reverter o problema.

É necessário entender essa luta, como uma reivindicação específica das mulheres, mas respaldada por uma realidade mais ampla, de classe. Portanto, deve estar aliada e fazer parte da luta de toda a classe trabalhadora, por um novo tipo de Estado, com um governo que expresse e seja o resultado da luta e da derrota do capitalismo e do regime burguês: o governo operário. Este é o único tipo de governo capaz de garantir a mudança real da situação da mulher na sociedade.


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Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009
Vítimas de violência em casa, milhões clamam por dignidade e justiça em todo o mundo, mas como solucionar um problema tão amplo, embrião de tantos outros conflitos e crimes que arruínam nossa sociedade? Em um texto inspirador, a jornalista Nayve Reverón nos alerta para a responsabilidade de fazermos o que estiver ao nosso alcance para mudar essa dolorosa realidade.
Os números da Organização Mundial de Saúde não deixam dúvidas sobre a dimensão do problema: a violência familiar assola todas as nações em uma guerra invisível e silenciosa, oculta por medo ou vergonha de suas vítimas. Cerca de 1,6 mil mortes são ocasionadas por violência doméstica ao ano no mundo, um problema de dimensões socioeconômicas e de saúde pública que ameaça o desenvolvimento dos povos, afeta a qualidade de vida e corrói o tecido social.
Questionadora, inconformada, a jornalista decidiu escrever sobre esta que se tornou uma das questões mais lamentáveis que uma pessoa pode enfrentar e embrião de diversos outros conflitos sociais. Sua obra Violência familiar – A paz começa dentro de casa, agora lançada por Paulinas, aborda o tema iluminado com dados de pesquisa, apresenta causas e consequências e oferece orientação médica, psicológica e espiritual em cada uma delas.
Seguindo o estilo adotado pela coleção: Temas Sociais para a Juventude, que trata de temas dolorosos, ignorados ou escondidos, esta obra conta sobre o presidente de um país que decide tomar uma atitude contra a violência doméstica: convoca ministros e secretários e propõe um plano de ação imediata. Impulsionados pelos ideais de grandes líderes da humanidade, vão dar início a uma grande campanha para promover a cultura da paz e levar harmonia, justiça e igualdade a todos.
Em seus textos, a autora nos alerta para a realidade e a responsabilidade de cada um em fazer aquilo que está ao seu alcance para, juntos, transformarmos o mundo. Sua coleção visa incentivar a reflexão e o diálogo com adolescentes sobre os problemas de nossa sociedade, suas causas e consequências, e provocá-los para que desenvolvam uma opinião que ao mesmo tempo sensibilize e humanize. A ideia é proporcionar a vivência dos conflitos através das narrativas e da análise das possíveis soluções a partir das informações oferecidas pelas obras.
Título: Violência familiar – A paz começa dentro de casa
Autora: Nayive Reverón
Editora: Paulinas
Coleção: Temas Sociais para a Juventude
Formato: 12,5 x 18,0
Págs.: 48
Código: 515221
ISBN: 9788535624236


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Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009
Como a condição feminina mudou ao longo da história. De primeira dama do paraíso, virgem santíssima e carola a Madonas, Leilas Diniz e mulheres-maravilha — muitas vezes à beira de um ataque de nervos. Preconceitos, assédios, triplas jornadas de trabalho: a mulher do século XXI.
Há milênios, a mulher é submetida por formas mais ou menos explícitas de violência e contenção. A primeira é descrita no gênesis bíblico, no qual nossa mãe Eva é alçada a uma condição de inferioridade ao homem, primeiro por ser um “subproduto” de uma parte de seu corpo e não o resultado vivo do sopro divino como fora Adão. Em seguida, Eva é feita culpada pela expulsão do Éden, ao tomar parte ativa no processo de desobediência divina, ao dar ouvidos à serpente e, por conseqüência, nos jogando para fora da boa vida paradisíaca.
Segundo o culto mariano católico, mesmo num casamento restrito e monogâmico, a mulher é impura - já que não é possível ser mãe e virgem
Antes de Eva havia o mito de Lilith. No Talmude, ela é descrita como a primeira mulher de Adão que, devido a sua insubmissão a um plano divino que a colocava como naturalmente inferior, foi lançada aos infernos, como Lúcifer, tornando-se, entre outras coisas, o símbolo do desregramento sexual e sedução maligna. Características que alertavam para perigos envolvidos em um papel mais ativo da mulher. Na era cristã, a Virgem Maria apareceu como resgate e modelo para a mulher nos próximos séculos. Infelizmente, o culto mariano impõe à mulher um modelo nocivo ao seu desenvolvimento subjetivo. Mesmo dentro de um casamento restrito e monogâmico, ela jamais seria suficientemente “pura” - ostentando em si a vergonhosa mácula do pecado sexual, visto que a maternidade e a virgindade são obviamente incompatíveis.
Em qualquer revisão histórica que se efetue da condição feminina, chegam-se a conclusões semelhantes que apontam para períodos mais ou menos misóginos [1] no Ocidente. A Igreja Católica de 2008 é contida pelo Ocidente laico que, a partir do Renascimento, vem limitando, a muito custo e com relativo sucesso, o seu poder imperial. Se assim não fosse, as idéias do Vaticano na atualidade não difeririam muito de seus ancestrais medievos. Exemplo disso são as declarações dos últimos dois papas acerca da condição feminina, fatalmente ligadas aos pecados da carne, aborto, sexualidade e comportamentos sociais diversos. “Tirem os vossos rosários de nossos ovários”, bradam as feministas ainda hoje. E com razão.
Em contrapartida, por meio da luta de mulheres e homens, principalmente no século 20, foram formuladas leis de proteção e benefícios fundamentais à correção de injustiças de gênero históricas. Porém, elas, paradoxalmente, não inibem violências das mais diversas contra a descendência de Eva. Ainda hoje, mulheres vivem sob jugo patriarcal e, em certos casos, sofrem violências sob o beneplácito do próprio Estado, que, ou introduz a submissão em seu breviário de leis, ou é frouxo no julgamento e condenação com bases na honra viril maculada. Notadamente presente em países como a China, Tailândia, algumas regiões da África e Oriente Médio e também na América Latina, essa característica possui tentáculos suficientemente grandes para abarcar países do “primeiro mundo”, que não são de modo algum isentos de registros de violência e contenção do gênero feminino.
Nada contra uma mulher adulta usar o corpo como lhe convier - inclusive fazendo sexo remunerado. O que preocupa é a relação submissa que a prostituição cria, sob mediação do dinheiro
Poderíamos pensar que há algo de errado com os homens… Será? Descartando, por ora, aqueles que são mais ignorantes ou provenientes de culturas que reduzem a importância do feminino, nos deteremos naqueles que possuem educação cultural e meios favoráveis para um comportamento menos machista e opressor com as mulheres. Porém, não se furtam de ser cúmplices do turismo sexual do terceiro mundo, de pertencerem a redes internacionais de pedofilia e de perpetrarem de forma oculta aquilo que já não podem fazer às claras.
Donos dos meios de produção, pertencentes à elite branca e dominante, tais homens perceberam, há muito, que existem formas sutis de burlar as regras às quais estão submetidos para poderem dar vazão ao primitivismo que resiste ainda dentro de si. A primeira e mais evidente se dá no território da prostituição. Ela prospera a passos largos no mundo inteiro. Clientes cada vez mais fiéis e assíduos utilizam-na como forma de exercer menos a sexualidade do que uma relação de poder onde, sob a mediação do dinheiro, se tem a mulher que se quer e da forma mais conveniente. A manutenção da indústria da prostituição tem como princípio a miséria de mulheres e meninas nas regiões mais vulneráveis do planeta e a demanda sempre crescente por esse serviço.
Não somos contrários à decisão de uma mulher adulta usar o seu corpo da forma como mais lhe convier, e isso pode incluir o ato sexual mediante remuneração. Contudo, preocupa-nos que esse homem descrito anteriormente está sempre ávido por “carne nova” e, ao que parece cada vez mais jovem. Para isso não hesita em aproveitar-se da indigência financeira e moral que acomete alguns países do terceiro mundo, cujo comércio de escravas sexuais movimenta altas somas financeiras e destrói a vida de adolescentes e crianças, vítimas das mais cruéis situações de maus-tratos e violência.
Nas grandes empresas, esse mesmo homem aprendeu a valer-se da mão-de-obra feminina. Farta e abundante, está sempre disposta a dar o melhor de si no ambiente laboral, visto que o fantasma de suas avós, dependentes e oprimidas, ainda se faz presente em uma mulher que hoje em dia coloca a carreira em pé de igualdade com o desejo de casar e ter filhos. E por que seriam excludentes ambas as coisas? Infelizmente as pioneiras da década de 50 a 70 pagaram um alto preço pela sua independência. Eram vistas como condenadas a ser pouco atraentes e frustradas no campo amoroso, em troca de ascensão profissional. É algo que a mulher contemporânea já não aceita. E, graças a isso, temos as famosas duplas, triplas e quádruplas jornadas da mulher. Acorda cedo, trabalha o dia todo, dá atenção à cria e de noite é esposa atenciosa e uma amante ardente para o seu marido que, por ser homem, não precisa provar muita coisa, já que, historicamente, esse sempre teve valor em si e, de certa forma, ainda mantém essa premissa interiorizada.
Nas classes populares percebe-se a incidência cada vez maior de um matriarcado estabelecido a partir de condições sociais que destacam uma situação favorável ao trabalho feminino, em contraste ao masculino. Mulheres da periferia obtêm renda como manicures, cozinheiras, costureiras, babás, faxineiras, ou, na pior das hipóteses prostitutas - trabalhos tradicionalmente associados ao feminino. Os homens nessas mesmas condições percebem a sua capacidade tradicional de trabalho diminuída no que se refere às atividades mais tradicionalmente ligadas ao masculino, seja por terem que dividi-las com as mulheres, seja pela perda de postos de trabalho ou exigências cada vez maiores de qualificação para ocupá-las. Assim não são raros os homens ociosos, alcoolistas e, muitas vezes, violentos com suas mulheres – aquelas mesmas que arcam com o orçamento familiar, custos de criação dos filhos e que, não raro, sofrem com a violência e desprezo masculino, que insiste em negar-lhes o valor merecido. De acordo com a pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), feita no Brasil em 1998, a violência doméstica é a causa de uma a cada cinco faltas de mulheres ao trabalho.
É uma premissa comum no universo do liberalismo econômico o de capitalizar as revoluções a fim de domesticá-las e inseri-las em um contexto lucrativo e palatável. E a revolução feminina das últimas décadas parece não fugir a essa mesma regra. Tendo adquirido o direito a uma sexualidade livre, a mulher ainda continua a sofrer com estigmas morais e a perder o seu valor com o declínio da beleza e da juventude. Tendo conseguido ascender ao mercado de trabalho, sofre explorações, assédios e humilhações. Isso se reflete na vida pessoal, tornando-a estressante e sofrida, o que acarreta em moléstias que vão da depressão, ausência de libido até moléstias cardíacas - que incidem de forma cada vez mais preocupante no universo feminino.
Tais exemplos sugerem que talvez a mulher pós-feminista tenha tornado-se um bom negócio comercial, sexual e laboral. O que poderia ter dado errado em décadas de lutas feministas então? Talvez Camille Paglia tenha algumas respostas. Ela denuncia o feminismo xiita e politicamente correto dos anos 70, que tentou anular algumas premissas básicas em relação á estruturação subjetiva daquilo que nomeamos como o “feminino”, criticando violentamente a geração de Betty Friedan e o feminismo militante que anulava as diferenças entre os sexos. Palavras de Camille na Folha de São Paulo do dia 27 de março de 2006: “No começo dos anos 90 eu declarei guerra contra o stalinismo do politicamente correto no estabelecimento feminista. Isso causou controvérsia, especialmente minha defesa da pornografia e das revistas de moda. Mas, graças à Madonna, minha ala do feminismo ganhou a batalha. Ela influenciou uma geração de mulheres que abraçou novamente o sexo e a beleza.”.
Afora os deslumbramentos de Miss Paglia, Madonna certamente é um ícone da modernidade, que fornece algumas pistas para o entendimento das benesses e das armadilhas em que as mulheres se vêem envolvidas atualmente, na ânsia de buscarem o absoluto, que é reservado a poucas (e poucos). Modelo por modelo, ao invés da apolínea pop star norte-americana, optamos pela nossa dionisíaca Leila Diniz que, na década de 60, já previa a multiplicidade de formas e contradições do feminino, que cada vez mais se pronunciam nesse milênio, só que de uma forma mais fluídica e prazerosa. Desobrigada da perfeição estética e da produção maquinal de gozos, Leila era subversiva sem ser patrulhadora, amante sem acrobacias, maternal sem culpas, trabalhadora consciente de seu valor, sedutora sem ser manipuladora, enfim, essa foi à imagem quase arquetípica que dela ficou.
Nunca a mulher desfrutou de tanta liberdade como hoje, em certos agrupamentos sociais. E o avanço da condição feminina só acrescenta, ao universo masculino, a companhia de uma mulher mais plena
Está convencida de que o avanço da condição feminina só acrescenta benesses ao universo masculino, que, ao longo das últimas décadas, desfruta da companhia de uma mulher mais plena e companheira. Nunca ela desfrutou de tanta liberdade em certos agrupamentos sociais como nos dias de hoje. Infelizmente, ecos medievais ainda subsistem nos corações e mentes. Até mesmo nos daqueles que, aparentemente, se apresentam como os mais evoluídos, sendo que ainda estamos longe do ideal de igualdade entre os gêneros, visto que basta a experiência de uma guerra para que o nosso verniz civilizatório venha por água abaixo.
Mudar a mentalidade masculina torna-se um imperativo para que possamos reduzir comportamentos agressivos e misóginos no mundo atual. Para isso, entendemos ser necessário uma conscientização feminina no sentido de que as mulheres assumam a sua parcela de culpa na transmissão de inúmeros preconceitos. Principalmente, na educação das crianças, da qual ainda são as grandes responsáveis direta, como mães e indiretamente como educadoras, visto que a quase totalidade desse ramo profissional, mais incisivamente na América Latina, se constitui de mulheres que, não raro, educam meninos e meninas sob as regras mais conservadoras possíveis - fato que, na maioria dos casos, não lhes é consciente.
Temos esperanças de que as reivindicações e lutas em prol de uma sociedade menos sexista e injusta frutifiquem nas próximas décadas. Mas para que isso se cumpra, ainda há muitas lutas a empreender. Recordemos, por exemplo, que somente com o novo Código Civil, que passou a valer a partir de 2003, o homem deixou de ser considerado como a “cabeça do casal”, bem como foram suprimidos outros arcaísmos humilhantes tal como o bizarro conceito de “mulher honesta”.


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Domingo, 27 de Dezembro de 2009
Normalmente, não costumo tratar destas questões aqui no blog. Mas não é possível deixar de ver que está sendo feita uma monstruosidade com este menino Sean Goldman, e com seu pai, o norte-americano David Goldman. Depois de cinco anos de luta judicial, decidem entregar-lhe o filho, do qual está afastado sem que haja, ao menos que seja de conhecimento público, uma razão concreta para que isso aconteça. Ele vem ao Brasil buscá-lo – e não é a primeira vez – e o Judiciário, tão lento em tanta coisa, suspende a decisão em 24 horas.
Este menino está sendo criado em um ambiente que não disfarça a hostilidade ao pai. A mãe morreu e a família de seu segundo marido, muito influente nos meios jurídicos, vem conseguindo há anos impedir que o pai retome a sua natural guarda do menino. Ela só poderia ser retirada se houvesse contra ele qualquer situação de crime, maus-tratos, incapacidade. Mas não há. “Foi uma covardia”, disse David. Sim, foi uma covardia.
Isso nada tem a ver com patriotismo. Isso é discriminação. Fosse David brasileiro, seria diferente, ou é por sua nacionalidade? Não é, diz a Justiça. Se há uma razão concreta para isso, qual é? Por que este homem há quatro anos é impedido sequer de ver seu filho, que foi levado de sua presença com apenas quatro anos de idade? Ou será que é pela influência da família do seu padrasto no meio judicial?
O que esta criança está passando? Que tipo de reflexos isso está tendo sobre ela, agora que tem nove anos? Avaliem que tipo de relação emocional ela pode ter com o pai, hoje?
Este episódio está expondo a Justiça brasileira. A imprensa brasileira só trata David como “pai biológico” . Que crueldade! Ao que se saiba, David nunca abandonou o filho.
Há uma carta de David na internet, onde toda a história é contada por ele. Vale a pena ler.
Que ao menos o espírito de Natal permita à Justiça brasileira apiedar-se da monstruosa situação que foi criada. Que se decida rápido e, enquanto isso, que se permita o acesso do pai ao filho e lhes forneçam apoio psicológico nesse reencontro. Que se lembrem que uma reação negativa de um menino que foi apartado do pai aos quatro anos e que hoje tem nove, criado pelos protagonistas desta luta judicial pode influenciar muito a reação da criança. O argumento da família do padrasto e dos avós maternos é que a criança não deseja estar com o pai. Poderia, depois de anos a pintarem-no como o demônio?
Em meio a tantos pais cruéis, que não hesitam em abandonar uma criança, será que a luta deste rapaz por seu filho, arruinando sua própria vida, não comove nosso juízes?

Vale a pena ler o que disseram, em seu parecer, as três peritas do caso Sean.
Eles examinaram o exaustivamente o menino, visitaram sua casa e seu colégio, entrevistaram Sean, seus familiares maternos, o pai adotivo e seus professores.
Dizem as três psicólogas:
1 - Não constataram carência em seu universo socioeconômico e cultural, e qualificaram como excelente a instrução recebida pelo menor.
2 - As condições de ‘liberdade’ e ‘convivência’ familiar não são atendidas devidamente: Sean não pode estar com o pai sem alguém vigiando, o pai não é recebido no apartamento onde ele, Sean, mora e, consequentemente, sua convivência familiar é unilateral, devido à ruptura e afastamento do pai.
3 - O menor está passando por um processo de ouvir ou perceber coisas negativas sobre o pai, ressaltando que a ausência do genitor no desenvolvimento do menor geralmente acarreta fragilidade emocional. A participação da figura paterna na formação da criança, sobretudo no caso de morte da mãe, é de extrema importância.
4 - O grande problema aqui é que Sean confia no que sentiu e ouviu do padrasto e da família materna, ou seja, que seu pai lhe abandonou.
5 - O afastamento entre Sean e o pai não adveio somente da distância geográfica. O padrasto e a família materna contribuíram em muito para a falta de proximidade entre o menor e seu genitor.
6 - A ligação afetiva entre Sean e os avós maternos não pode ser óbice ao retorno ao Estado requerente (EUA). Não se trata de negar a importância dos laços familiares, mas sim de reconhecer a impossibilidade de afirmar que o convívio com os familiares paternos seja menos importante do que o convívio com a família materna.
7 - Não se nega o valor da relação fraternal entre o menor e sua irmã caçula. Ocorre que, nas famílias da presente época, são bastante comuns os casos em que o convívio entre os irmãos não se dá de forma integral, notadamente quando estes são frutos de relacionamentos distintos. Por outro lado, fundamental para a educação e o desenvolvimento saudável da criança é o convívio integral com o seu pai biológico.
8 - Rupturas devem ser evitadas sempre que possível, porém a mais significativa é a ruptura por alienação parental, porque atinge elos da criança que são essenciais (pai/mãe), enquanto que os elos fraternos constroem-se com a convivência e afinidades, sendo, em sua natureza, adicionais. A separação dos irmãos deve ser evitada em caso de ter que se colocarem as crianças em lares alternativos, que não os originais. Não se priva uma criança do convívio parental biológico saudável para conviver com uma meia irmã, com quem o vínculo afetivo está ainda na fase inicial. A relação fraterna vai se fortalecer através do tempo, com convivência e afinidades.
Uma ação contra o padrasto assinado pelo procurador da República, Gustavo Magno Goskes Briggs de Albuquerque diz que “não há nada nos autos que obste o retorno do menor ao seu país de origem e à convivência com o pai biológico. Há, neste contexto, decisão do Poder Judiciário dos Estados Unidos da América — país democrático que possui um Poder Judiciário independente, capaz de analisar a questão da guarda em observância ao devido processo legal e ao superior interesse do infante — deferindo a custódia física do menor provisoriamente ao pai”.
Diz também que o “laudo pericial — cuja fidedignidade é atacada pelo Réu, sem provas ou indícios de irregularidade minimamente aptos para tanto — é cristalino quanto aos efeitos psíquicos nocivos suportados por Sean em virtude da perda da mãe e da ausência do pai, e aponta a presença de sinais da Síndrome de Alienação Parental. É o que se depreende do seguinte trecho: “As escolhas de Sean não podem ser decisórias, não só pela falta de maturidade, própria de sua idade, mas também porque está à mercê de seu estado emocional neste momento. Pesam, em seu íntimo, os seguintes fatores: quem ficaria zangado com ele; quem, pela sua simples presença, o inibe; as promessas que o fizeram fazer. Todos esses elementos tornam-se intensamente exacerbados, ou distorcidos, no caso de a criança estar sob a Síndrome de Alienação Parental, o que, no caso de Sean, é a hipótese mais plausível. O ’sim’ de hoje poderá ser o ‘não’ de amanhã. A maior violência psicológica sobre a criança se dá quando ela não consegue mais distinguir o seu desejo do desejo do alienador, em consequência de forças impositivas.”
“As Peritas, quando indagadas sobre a reação de Sean à morte da mãe, relataram que o seu vínculo com o padrasto restou fortalecido após aquele acontecimento e que, por uma questão de fidelidade à mãe falecida, afloraram sentimentos de posse e ciúme em relação ao padrasto. Assim narraram as ilustres Peritas”:
“Segundo a escola, sua família materna e ele próprio reagiram bem. Apoiou-se muito no padrasto, chegando, segundo falas registradas pela peritas, a estabelecer com ele um contrato cuja natureza se fundamenta numa promessa de fidelidade à mãe morta: não haveria outro relacionamento amoroso para o padrasto. Esta é uma repetição funesta da mesma cena da separação do pai: brusca ruptura, e estabelecimento de compromisso de fidelidade com um dos elementos do antigo par; como esse lugar não pode ser ocupado, estamos de uma situação psicológica com perspectivas futuras bastante preocupantes, de cunho psicopatológico.”
“Ora, a promessa de não firmar novos relacionamentos amorosos causa estranheza até mesmo para o leigo em fenômenos psíquicos. Afinal, não é razoável conceber que um homem jovem garanta a uma criança que nunca mais se afeiçoará a outra mulher, sabendo-se que é inerente ao ser humano envolver-se em relações amorosas”.
Grande parte do que está aqui relatado foi revelado, durante o julgamento do caso, pelo ministros do Supremo, que teve trasmissão ao vivo pela TV-Justiça.
Isso é alienação parental com a ajuda da nossa justiça... Não temos como negar, a justiça brasileira,demonstrou nesse caso que só é cega para os que não têem influencia dentro dela... Não foi cega no caso de alienação parental explicita, alienação parental exercida por um dos maiores advogados do direito da família!!! Faz me rir Brasil.
Como será agora a vida de Sean, quem ira cuidar da cabecinha dessa criança?


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Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
“La única forma de aprender a amar es siendo amado.
La única forma de aprender a odiar es siendo odiado.
Esto ni es fantasia ni teoria, simplesmente es un echo
comproblable.”
ASHLEY MONTAGU, La agresión humana,1976


O poder humano decorre de três fontes principais: o conhecimento, o dinheiro e a violência.
A violência é a forma mais primitiva e inferior de poder, porque só podemos usá-la para castigar, fazer mal, destruir.
Suas sementes são semeadas nos primeiros anos de vida, cultivadas na infância e começam a dar frutos malignos na adolescência, estimuladas por crueldades sofridas, até fazer parte do caráter do adulto.
Nossos comportamentos desde o sadismo até o altruísmo são o resultado de processo evolutivo condicionado pelas forças sociais e valores culturais.
As histórias de nossa civilização estão repletas de agressões humanas. Através do sexo, seres frágeis e grupos minoritários foram objetos fáceis de ultrajes exploração e tormentos.
A Organização Mundial da Saúde (outubro de 2002) relata que atos de violência matam mais de 1,6milhões de pessoas ao ano.
O que nos leva a torturar e matar semelhante e até nossos companheiros de vida?
A disputa entre o genético e a influência social é um tema que gera controvérsias quando se quer explicar a formação das personalidades e conseqüentemente as tendências pacíficas ou violentas das pessoas.
A explicação da violência como genética ou aprendida é uma controvérsia entre os experts.
Para alguns a violência é uma qualidade humana inata, universal e inevitável que se libera automaticamente obedecendo a um impulso natural programado nos genes de nossa espécie.
O mundo é cheio de estímulos perigosos dos quais temos que nos defender. Por isto a violência torna-se necessária para a continuação da espécie.
Para outros, os animais lutam pela sobrevivência, mas não são cruéis. Quando lutam estão motivados por medo de serem eliminados em situação que se sentem acuados, por fome, necessidade de procriação ou defesa de si e da espécie. Quando podem, evitam matar ou mutilar seu competidor, limitando-se a retirarem-se com superioridade quando vencem e permitindo que seu inimigo fuja sem persegui-lo. Quando têm que matar faz-no da forma mais rápida possível, sem nenhuma crueldade.
O homem diferentemente, não tem comportamentos violentos só quando está ameaçado e pode ser cruel quando levado por emoções, mesmo sem necessidade de auto defesa. É no cérebro, dotado de grande plasticidade, para responder aos estímulos do meio, que se desenvolve a maneira de ser violento nos seres humanos. Conseqüentemente, herdamos genes agressivos, mas não a crueldade.
Só alguns são cruéis.
Nascemos com a predisposição para a violência, mas também para a compaixão.
A violência se aprende sob certas circunstâncias e se aprende profundamente.
O bebê satisfeito desenvolve segurança em si e nos demais, bem como a comunicabilidade. O ignorado é temeroso e agressivo.
As paixões jogam um papel poderoso no comportamento humano. Podem estimular tanto a inveja, tirania e agressividade, quanto à criatividade, autonomia e a solidariedade.
As paixões dão significado à vida humana. Geram monstros e heróis.
As experiências que mais predispõe a recorrer à violência para resolver frustrações é ser objeto ou testemunha de repetidas agressões na infância, principalmente por parte dos progenitores. As pessoas que vivem entre agressões e humilhações na infância tendem a ser insensíveis a estes horrores e/ ou podem tornar-se agressores.
A idéia de que o poder das paixões e a violência são aprendidos, garante-nos poder lutar para mitigá-los ou preveni-los. Por isto devemos dirigir os cuidados preventivos e terapêuticos primordialmente aos pequenos durante os primeiros 12 anos de vida enquanto há a possibilidade de desenvolver a compaixão, a tolerância, o sentido de autocrítica e a empatia.
O antídoto universal e mais poderoso contra a violência é o desenvolvimento das tendências altruístas naturais do ser humano.
Olhando do ponto de vista histórico as idéias malignas parecem estar diminuindo entre as pessoas:
1. A posição da criança na sociedade melhorou;
2. A mulher já não é vista como propriedade do homem em grande número de nações;
3. Embora ainda existam guerras se conteve a obsessão de se construir bombas atômicas.
Resta-nos, contudo, um longo caminho até a convivência pacífica entre as pessoas.
A violência é sempre preocupante em vários cenários humanos. A mais inquietante é a que se desenvolve no lar. Espaço que deveria, pelo seu objetivo formador, ser o mais amoroso.
As conseqüências da violência doméstica são tão desastrosas, por que atinge o celeiro humano de novas personalidades destruindo-as antes que se formem.
“A violência doméstica é o conjunto de formas de violência que se exerce no lar, qualquer que seja a pessoa que a exerça ou sofra”
A nosso ver é a mais destruidora.
Perigosa realidade, porque todos temos impulsos amorosos e agressivos e é a família que é a referência, a matriz de identidade e deve nos ensinar como controlar a raiva e dar saída às pulsões internas com limites. Caso a família forneça modelos de agressão o ato lesivo passa a ser considerado normal, não se critica as conseqüências que dele advém e é a violência o modelo aprendido pela criança para reagir a frustrações.
A criança maltratada sente-se isolada, sozinha, com medo, se retrai. Passa a desconfiar de todos e quando em conflito torna-se agressora, porque foi este o mecanismo que aprendeu para solucionar conflitos e aí é excluída pelo social.
Neste momento cria-se o padrão repetitivo de exclusão. A criança se exclui e se isola pelas agressões sofridas em casa, ou é excluída quando castigada pelas agressões que comete em casa e na rua.
Existem várias formas de exclusão doméstica. Desde a agressão psicológica que inclui insultos, desqualificações, ameaças de abandono e morte, até a negação da existência por indiferenças, isolamento ou segredo, chegando às formas mais graves, à condenação à morte em vida, pelo descaso e desqualificação da pessoa, que é tratada com se não existisse. Na maioria das vezes estas atitudes não possuem nenhuma justificativa importante que as explique.
Esta exclusão às vezes se concretiza em formas mais efetivas: impossibilitar a alguém o pertencimento à família negando-lhe o sobrenome, a expulsão de casa sem dinheiro nenhum e/ou chegar a deserdar a pessoa. Em alguns casos isto ocorre como meio de afastamento da família, para impedir que delate abusos sexuais ou físicos que lhe foram infringidos e que são outras formas freqüentes de violências domésticas.
Existem algumas formas disfarçadas de violência:
1. Dizer à pessoa que está sendo espancada para seu próprio bem, o que ainda gera culpa;
2. Abandono disfarçado de falta de exercício de autoridade e falta de fronteiras, em nome de excesso de confiança e flexibilidade, que encobrem comodismo e descuido;
3. Proteção excessiva que encobre desqualificação da capacidade da pessoa para resolver problemas.
4. Relacionamentos em que se encobre manutenção de dependência com obrigatoriedade de lealdade familiar acima de tudo, que deixam a pessoa sem escapatória, pois nada do que é visto ou vivido em casa pode ser contado fora, sob pena da pessoa que o fizer ser qualificada como traidora da família;
5. Atribuição de responsabilidades excessivas a um filho gerando sobrecarga para ele, a fim de
eximir-se de seus deveres parentais ou pessoais;
6. Criação de um clima familiar de raiva e culpa que imobiliza e passa a ser o modelo de relacionamento.
Nosso objetivo ao levantarmos estes padrões de exclusão no lar é informar aos terapeutas e educadores para que se instrumentalizem buscando medidas para vencê-los.
Propostas terapêuticas e sócio-educativas
Como o tratamento da violência ainda está sendo muito estudado no mundo todo, pensamos que seria útil para finalizar, elencar algumas maneiras de pensar e agir, que estão sendo adotadas neste setor na terapia familiar que poderão ajudar os profissionais que trabalham com violência doméstica.
A identificação dos padrões de violência leva à aquisição de força que pode ser posta a serviço da pessoa.
Uma das medidas preliminares é propor à família começar a estabelecer padrões relacionais sem ameaças e aprender a negociar na terapia familiar, sem a exclusão de nenhuma pessoa envolvida no problema.
Construir em conjunto com a família o desapego das crenças do passado e começar a criar formas de relacionar-se mais em conformidade com as necessidades de cada um no presente. Aprender a ouvir o outro para negociar as diferentes maneiras de pensar e agir em busca de soluções que contemplem a todos. Uma das principais conseqüências da violência é a perda de auto-estima que leva a pessoa a ficar presa, sem coragem de sair da situação por não acreditar mais nas suas capacidades. Quando esta pessoa passa a ser aceita e valorizada, recupera sua auto-estima.
É primordial, também a desmistificação da pessoa que é colocada no poder, pela própria trama relacional familiar o que faz dela um mito. Na terapia aprendemos a vê-la como uma pessoa fraca que precisa deste poder de dominação para sentir-se segura. Esta nova percepção devolve o poder às outras pessoas da família que param de endeusá-la como poderosa começando a temê-la menos, o que diminui o seu poder de coação.
Abrir mão do pensamento julgador e procurar compreender o que acontece com cada um desenvolvendo a capacidade de cuidar.
Rever os velhos problemas procurando sempre novas soluções concretas para os mesmos.
Empregar o humor na terapia dá mais alegria e leveza ao tratamento.
Reconhecer a diferença entre a comunicação íntima e a social e aprender que cada um fala por si e sabe o que é bom para si. Compreender a necessidade de respeitar as diferentes formas de ser, para que todos cresçam.
O importante é que:
Cada um descubra sua potência, através da própria história de sobrevivência, aprendendo a valorizar a sua resiliência, ou força interior de resolução de problemas.
É preciso que todos fiquem cientes de que somos autores de nossas vidas e dotados de forças para defendê-la.
As normas de respeitar a palavra de cada um e deixar que falem por si, são importantes para manter a ordem na sessão e estabelecer uma nova forma conversacional entre as pessoas.


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Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009
Conta o mito grego que a deusa Hera, filha de Cronos, era o objeto da paixão de Zeus. Seu irmão divino havia, inutilmente, tentado todo tipo de subterfúgio para conquistá-la. A deusa, porém, fugia-lhe. Foi então que, inconformado, ele adotou um último artifício. Um dia, vendo-a vagar pelas montanhas após uma tempestade, Zeus metamorfoseou-se em um cuco, triste e tremendo de frio. Ao vê-lo, a bela Hera compadeceu-se do bichinho, o recolheu e o levou ao peito para aquecê-lo. Repentinamente, Zeus retomou sua forma e a fez sua amante, sem antes, porém, prometer o que ela queria, o matrimonio.

Como é sabido, o casamento de Hera com Zeus não foi dos mais felizes. Não só o deus era inconstante e infiel, tendo inúmeros casos com deusas, ninfas e mortais, como ele assumiu o poderio absoluto do Olimpo, relegando Hera ao segundo plano. Talvez não acaso, a deusa estivesse tão relutante em aceitar a paixão de Zeus.

O coração piedoso a traiu. Foi sua generosidade, sensibilidade e zelo pelas criaturas que tornou Hera presa de Zeus.

Este episódio da vida de Hera modela, ainda hoje, certas experiências femininas. Muitas vezes, é o sentimento carinhoso da mulher que a boicota e a coloca ou mantém em situações que lhe são desfavoráveis. Assim como Hera, as armadilhas nas quais a mulher cai são as que apelam à sua sensibilidade maternal. Por conta disso, ela pode abafar seus desejos e necessidades. É como se houvesse uma vergonha interna que a impede de dizer “não”, e de simplesmente cuidar da sua vida em prol de seu próprio crescimento. Esta situação não atinge só mulheres, mas suas raízes estão num modelo feminino de relacionamento.

Manter relações que nos prejudicam porque se tem dó da outra pessoa é o resultado de uma confusão psicológica interna. Nasce da crença equivocada de que se “deve” ao outro alguma coisa e que abandonar a criatura ao seu destino nos tornaria “más”. Não se percebe que a outra pessoa não demonstra a mesma preocupação para conosco e, muitas vezes, continua cega e surda àquilo que é preciso mudar, mesmo assistindo à nossa infelicidade.

É preciso também esclarecer que não é necessário brigar com alguém para decidir mudar de rumo. Pode-se inclusive continuar gostando de uma pessoa e perceber que a relação não nos faz bem, que, pelo contrário, corta nossas asas e trava nosso movimento. Se, após tentativas e investimentos, as coisas não mudarem, é hora de tomar uma atitude. Cuidado com a auto-sabotagem. Encontros e despedidas fazem parte da vida. O que recebemos, também, com certeza já demos. Há caminhos que duram menos do que o esperado, nem por isso são errados. E se não são errados, nem por isso devem ser eternos.

Ter perspectivas diferentes sobre a vida obriga as pessoas a criar alguma forma de conciliação, que haveria de ser boa para ambas. Quando, porém, se possui desejos e falas parecidos, mas comportamentos e interesses concretos divergentes acabam que uma das partes sucumbe, “adaptando-se” à outra. A alternativa a isso seria ignorar os interesses da outra pessoa e levar adiante a própria vida, neste caso quem sucumbe é a relação.

Geralmente (mas é bom lembrar que pode ser exatamente o contrário), são as mulheres que se encaixam nas limitações do homem. Ao bloquear seu movimento pela dó que sentem da dor, da solidão e do desamparo do outro, estão refazendo os mesmos passos de Hera. Congelam-se naquele momento em que ela recolheu o pobre cuco do chão frio e o afagou ao peito. Congelam também ele na forma de um pobre bichinho indefeso e só. Como num disco quebrado, a mesma estrofe é repetida inúmeras vezes.

Enquanto isso se perde de vista o fato que a vida continua que os anos passam, e que o cuco, na verdade, é o alter ego de Zeus todo poderoso, que, assumindo o controle total da situação, comanda o Olimpo conforme seus caprichos e inclinações pessoais. O ego, quando deixado a si mesmo, sem interlocução adulta é sempre autoritário e tirânico, apesar de, por fora, parecer carente e inócuo.


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Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009
Tenho dito varias vezes aqui neste blog que a violência da mulher, a violência doméstica só terá fim quando nos conscientizarmos que ser desconstruida na educação básica, nas escolas, da mesma forma que ensinam nossas crianças o beaba teremos que começar a ensina-las a respeitar a mulher como um ser igual. E não como um ser menor do que o homem.
O ideal neste caso seria trabalhar tanto com ações pontuais específicas, como com as políticas públicas transversais. Ao se adotar as políticas públicas transversais, objetivando a igualdade entre homens e mulheres, encontram-se um norte a trilhar na busca de um caminho que modifique o panorama da violência em geral e a de gênero em particular. A Secretaria da Mulher poderia desempenhar o papel de catalisadora neste processo articulando-se aos Conselhos ou Secretarias da Mulher em todos os Estados.
Além disto, a conscientização da natureza histórica da desigualdade de gênero precisa ser trabalhada desde o início do ensino escolar, já que a desigualdade de gênero somada à ordem patriarcal vigente são alguns dos ingredientes que, unidos ao sentimento de culpa inculcado historicamente na psique das mulheres, contribuem para a perpetuação das relações desiguais de poder que acabam por acarretar em violência.
A desconstrução das redes que tecem a violência contra a mulher ainda levará muito tempo, porém, não seria utópico acreditar em sua finitude, na medida em que o que se construiu sócio-historicamente pode ter seu caminho refeito em outra perspectiva. Em curto prazo, faz-se necessário e urgente um ordenamento jurídico adequado e coerente com as expectativas e demandas sociais. Além disso, não basta que haja um ordenamento que tenha vigência jurídica, mas não tenha vigência social, isto é, que não seja aceito e aplicado pelos membros da sociedade.
O combate ao fenômeno da Violência contra Mulher não é função exclusiva do Estado; a sociedade também precisa se conscientizar sobre sua responsabilidade, no sentido de não aceitar conviver com este tipo de violência, pois, ao se calar, ela contribui para a perpetuação da impunidade. Faz-se urgente a compreensão, por parte da sociedade como um todo, de que os Direitos das Mulheres são Direitos Humanos, e que a modificação da cultura de subordinação calcada em questões de gênero requer uma ação conjugada, já que a violência contra a mulher desencadeia desequilíbrios nas ordens econômica, familiar e emocional.
A violência contra a mulher é produto de uma construção histórica — portanto, passível de desconstrução — que traz em seu seio estreita relação com as categorias de gênero, classe e raça/etnia e suas relações de poder. Por definição, pode ser considerada como toda e qualquer conduta baseada no gênero, que cause ou passível de causar morte, dano ou sofrimento nos âmbitos: físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública quanto na privada.
Para se compreender o fenômeno da violência com base no sexismo se faz necessário um breve retorno ao legado investido à mulher pela cultura ocidental.
A classificação da Mulher tem sido norteada pelas óticas biológica e social, determinantes para a desigualdade de gênero, que traz em seu bojo uma relação assimétrica sob a égide de um discurso que se pauta na valoração de um sexo sob o outro.
Por exemplo, na Grécia, os mitos contavam que, devido à curiosidade própria de seu sexo, Pandora tinha aberto a caixa de todos os males do mundo e, em conseqüência, as mulheres eram responsáveis por haver desencadeado todo o tipo de desgraça. A religião é outro dos discursos de legitimação mais importantes. As grandes religiões têm justificado ao longo dos tempos os âmbitos e condutas próprios de cada sexo. (PULEO, 2004, p. 13)
Na Grécia Antiga havia muitas diferenças entre homens e mulheres. As mulheres não tinham direitos jurídicos, não recebiam educação formal, eram proibidas de aparecer em público sozinhas, sendo confinadas em suas próprias casas em um aposento particular (Gineceu), enquanto aos homens, estes e muitos outros direitos eram permitidos, como Vrissimtzis (2002) elucida:
[...] o homem era polígamo e o soberano inquestionável na sociedade patriarcal, a qual pode ser descrita como o ‘clube masculino mais exclusivista de todos os tempos’. Não apenas gozava de todos os direitos civis e políticos, como também tinha poder absoluto sobre a mulher. (VRISSIMTZIS, 2002, p. 38)
Em Roma “elas nunca foram consideras cidadãs e, portanto, não podiam exercer cargos públicos” (FUNARI, 2002, p. 94). A exclusão social, jurídica e política colocavam a mulher no mesmo patamar que as crianças e os escravos. Sua identificação enquanto sujeito político, público e sexual lhe era negada, tendo como status social a função de procriadora.
Com o advento da cultura judaico-cristã tal situação pouco se alterou. O Cristianismo retratou a mulher como sendo pecadora e culpada pelo desterro dos homens do paraíso, devendo por isso seguir a trindade da obediência, da passividade e da submissão aos homens, — seres de grande iluminação capazes de dominar os instintos irrefreáveis das mulheres — como formas de obter sua salvação. Assim a religião judaico-cristã foi delineando as condutas e a ‘natureza’ das mulheres e incutindo uma consciência de culpa que permitiu a manutenção da relação de subserviência e dependência. Mas não foi só a religião que normatizou o sexo feminino, a medicina também exerceu seu poder, apregoando até o século XVI a existência de apenas um corpo canônico e este corpo era macho. Por essa visão a vagina é vista como um pênis interno, os lábios como o prepúcio, o útero como o escroto e os ovários como os testículos.
A crença da mulher como um homem invertido e, portanto, inferior, perdurou durante milhares de anos como se pode observar, na passagem em que Laqueur (2001), comenta a visão de Aristóteles:
O kurios, a força do esperma para gerar uma nova vida, era o aspecto corpóreo micro cósmico da força deliberativa do cidadão, do seu poder racional superior e do seu direito de governar. O esperma, em outras palavras, era como que a essência do cidadão. Por outro lado, Aristóteles usava o adjetivo akuros para descrever a falta de autoridade política, ou legitimidade, e a falta de capacidade biológica, incapacidade que para ele definia a mulher. Ela era como o menino, em termos políticos e biológicos uma versão impotente do homem, um arren agonos. (LAQUEUR, 2001, p. 68)
O modelo de sexo único prevaleceu durante muito tempo por ser o homem — ser humano nascido com o sexo biológico masculino, ou seja, pênis — o alvo e construtor do conhecimento humano. Dentro dessa visão androcêntrica, a mulher consistia em uma categoria vazia.
Apenas quando se configurou na vida política, econômica e cultural dos homens a necessidade de diferenças anatômicas e fisiológicas constatáveis é que o modelo de sexo único foi repensado.
Assim, o antigo modelo no qual homens e mulheres eram classificados conforme seu grau de perfeição metafísica, seu calor vital, ao longo de um eixo cuja causa final era masculina, deu lugar, no final do século XVIII, a um novo modelo de dimorfismo radical, de divergência biológica. Uma anatomia e fisiologia de incomensurabilidade substituíram uma metafísica de hierarquia na representação da mulher com relação ao homem. (LAQUEUR, 2001, p.17)
A visão naturalista que imperou até o final do século XVIII determinou uma inserção social diferente para ambos os sexos. Aos homens cabiam atividades nobres como a filosofia, a política e as artes; enquanto às mulheres deviam se dedicar ao cuidado da prole, bem como tudo aquilo que diretamente estivesse ligado à subsistência do homem, como: a fiação, a tecelagem e a alimentação. Um exemplo desta posição paradigmática pode ser observado em Rousseau (1817):
A rigidez dos deveres relativos dos dois sexos não é e nem pode ser a mesma. Quando a mulher se queixa a respeito da injusta desigualdade que o homem impõe, não tem razão; essa desigualdade não é uma instituição humana ou, pelo menos, obra do preconceito, e sim da razão; cabe a quem a natureza encarregou do cuidado com os filhos a responsabilidade disso perante o outro. (ROUSSEAU apud EGGERT, 2003, p. 03)
Tal eixo interpretativo começou a mudar neste mesmo século, a partir da Revolução Francesa (1789). Nela as mulheres participaram ativamente do processo revolucionário ao lado dos homens por acreditarem que os ideais de igualdade, fraternidade e liberdade seriam estendidos a sua categoria. Ao constatar que as conquistas políticas não se estenderiam ao seu sexo, algumas mulheres se organizaram para reivindicar seus ideais não contemplados. Uma delas foi Olympe de Gouges, que publicou em 1791, um texto intitulado Os Direitos da Mulher e da Cidadã no qual questiona:
Diga-me, quem te deu o direito soberano de oprimir o meu sexo? [...] Ele quer comandar como déspota sobre um sexo que recebeu todas as faculdades intelectuais. [...] Esta Revolução só se realizará quando todas as mulheres tiverem consciência do seu destino deplorável e dos direitos que elas perderam na sociedade. (ALVES, & PITANGUY, 1985, p. 33-34)
No século XIX há a consolidação do sistema capitalista, que acabou por acarretar profundas mudanças na sociedade como um todo. Seu modo de produção afetou o trabalho feminino levando um grande contingente de mulheres às fábricas. A mulher sai do locus que até então lhe era reservado e permitido — o espaço privado, e vai à esfera pública. Neste processo, contestam a visão de que são inferiores aos homens e se articulam para provar que podem fazer as mesmas coisas que eles, iniciando assim, a trajetória do movimento feminista, que pode ser assim definido:
Grosso modo, pode-se dizer que ele corresponde à preocupação de eliminar as discriminações sociais, econômicas, políticas e culturais de que a mulher é vítima. Não seria equivocado afirmar que feminismo é um conjunto de noções que define a relação entre os sexos como uma relação de assimetria, construída social e culturalmente, e na qual o feminismo é o lugar e o atributo da inferioridade. (GREGORI, 1993, p. 15)
Ao questionar a construção social da diferença entre os sexos e os campos de articulação de poder, as feministas criaram o conceito de gênero, abrindo assim, portas para se analisar o binômio dominação-exploração construído ao longo dos tempos.
A violência contra a mulher traz em seu seio, estreita relação com as categorias de gênero, classe e raça/etnia e suas relações de poder. Tais relações estão mediadas por uma ordem patriarcal proeminente na sociedade brasileira, a qual atribui aos homens o direito a dominar e controlar suas mulheres, podendo em certos casos, atingir os limites da violência..
No contexto brasileiro, a década de 70 é marcada pelo surgimento dos primeiros movimentos feministas organizados e politicamente engajada em defesa dos direitos da mulher contra o sistema social opressor — o machismo.
A política sexista reinante até então, deixava impunes muitos assassinatos de mulheres sob o argumento de legítima defesa da honra. Como exemplo, temos em 1976, o brutal assassinato de Ângela Maria Fernandes Diniz pelo seu ex-marido, Raul Fernando do Amaral Street (Doca) que não se conformou com o rompimento da relação e acabou por descarregar um revólver contra o rosto e crânio de Ângela. Sendo levado a julgamento foi absolvido com o argumento de haver matado em ‘legítima defesa da honra’. A grande repercussão dada à morte de Ângela Diniz na mídia, acarretou numa movimentação de mulheres em torno do lema: ‘quem ama não mata’.
O caso acima relatado é apenas um exemplo da grande impunidade à violência perpetrada contra as mulheres, violência que, com a mobilização do movimento feminista ganhou a seguinte definição:
A expressão refere-se a situações tão diversas como a violência física, sexual e psicológica cometida por parceiros íntimos, o estupro, o abuso sexual de meninas, o assédio sexual no local de trabalho, a violência contra a homossexualidade, o tráfico de mulheres, o turismo sexual, a violência étnica e racial, a violência cometida pelo Estado, por ação ou omissão, a mutilação genital feminina, a violência e os assassinatos ligados ao dote, o estupro em massa nas guerras e conflitos armados.
A partir do engajamento do movimento de mulheres e do movimento feminista contra essa forma de violência, surge em 1981, no Rio de Janeiro, o SOS Mulher; seu objetivo era construir um espaço de atendimento às mulheres vítimas de violência, além de ser um espaço de reflexão e mudanças das condições de vida destas mulheres. O SOS Mulher não se restringiu apenas ao Rio de Janeiro, esta iniciativa também foi adotada em outras capitais, como: São Paulo e Porto Alegre. “A então forte e bem sucedida politização da temática da violência contra a mulher pelo SOS - Mulher e pelo movimento de mulheres em geral fez com que, em São Paulo, o Conselho Estadual da Condição Feminina, [...], priorizasse essa temática, entre outras.” (SANTOS 2001)
A Constituição Federal Brasileira de 1988 incorpora aos direitos e garantias do seu texto original, os estabelecidos em decorrência de acordos e tratados internacionais. Desta forma, as Resoluções da Convenção de Belém do Pará e da CEDAW são também garantias constitucionais, como expressa o artigo 5º parágrafo 2º, da Constituição Federal: ‘Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte’. (BRASIL, 2006, p. 15-16)
Desta forma, a criação das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) vêem efetivar o compromisso assumido perante os sistemas internacionais. Tal iniciativa contribuiu para dar maior visibilidade à problemática da violência contra a mulher, especialmente a doméstica; favorecendo a discussão da natureza criminosa da violência perpetrada sob questões de gênero, além de criar uma via de enfrentamento e erradicação da violência contra a mulher no Brasil.
A violência contra a mulher voltou à pauta no cenário internacional em 1993 com a Declaração de Viena. Nela foram considerados os vários graus e manifestações de violência, incluindo as resultantes de preconceito cultural e tráfico de pessoas. Um grande avanço desta declaração foi à revogação da violência privada como criminalidade comum, considerando assim, que a violência contra a mulher infringe os Direitos Humanos e é realizada principalmente na esfera privada. Um ano depois, em 06 de junho, a Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos – OEA aprovou a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, conhecida como Convenção de Belém do Pará. Essa Convenção foi ratificada pelo Brasil em 1995.
A violência contra a mulher tem raízes profundas que estão situadas ao longo da história, sendo, portanto de difícil desconstrução. No Brasil, o início da década de 80 foi marcado pela forte mobilização dos sujeitos do sexo feminino em torno da temática da violência contra a mulher. Sua articulação em movimentos próprios, somada a uma intensa busca por parcerias com o Estado, para a resolução desta problemática, resultou em uma série de conquistas ao longo dos anos. A mais recente é a aprovação da Lei nº 11.340/2006, que entrou em vigência no dia 22 de setembro de 2006, depois de ter sido amplamente discutida e reformulada por um Grupo de Trabalho Interministerial que analisou o anteprojeto enviado por um consórcio de ONGs (Organização Não-Governamental) — ADVOCACY AGENDE, CEPIA, CFEMEA, CLADEM/IPÊ e THEMIS.
A apreciação da proposição na Câmara Federal envolveu a sociedade civil ao longo de 2005, por meio de audiências públicas, em assembléias legislativas que ocorreram em vários estados brasileiros.
Mas não foi somente a articulação a âmbito nacional que pressionou a aprovação do PCL 37/2006, que se transformou na Lei nº 11.340/2006, denominada Lei ‘Maria da Penha’. O não cumprimento dos compromissos firmados em Convenções Internacionais acarretou em denúncia ao Sistema Internacional, através da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), que após a avaliação do caso, publicou em 2001 o Relatório nº 54, que dentre outras constatações, recomendou que o país desse prosseguimento e intensificasse o processo de reforma legislativa que evite a tolerância estatal e o tratamento discriminatório com respeito à violência doméstica contra as mulheres no Brasil.
Dentro dessa conjuntura política a nova Lei nº 11.340/2006 veio como um passo em direção ao cumprimento das determinações da Convenção de Belém do Pará e da Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra as Mulheres (CEDAW), além de regulamentar a Constituição Federal.
Apesar das resistências de alguns juristas na aplicação dos dispositivos da Lei ‘Maria da Penha’, ela está ganhando seu espaço e apresenta-se como um importante instrumento, não só normativo, mas político-jurídico, admirável e de difícil contestação, na construção de uma sociedade justa e sem desigualdades pautadas sob as questões de gênero.


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Sábado, 19 de Dezembro de 2009
Hoje resolvi falar sobre os mitos que rondam a violência da mulher. Porque acredito que já está mais do que na hora de colocarmos as coisas de forma clara, para que todos possam realmente saber o que de verdade sofre uma mulher que é vitima de violencia....
Primeiro mito
A violência doméstica é uma “perda de controle”- uma questão do controle da ira.
Fato
O comportamento violento é uma escolha – a violência doméstica nada tem que ver com a ira. Esta é uma ferramenta que os agressores usam para obter o que desejam. Sabemos que de fato os agressores têm bastante controle porque param quando alguém bate à porta ou o telefone toca. Sempre tentam direcionar os socos e os pontapés para as partes do corpo onde os ferimentos têm menor possibilidade de serem vistos e não agridem qualquer pessoa quando estão “irados”, mas esperam até que não haja testemunhas e então praticam o abuso contra a pessoa a quem dizem que amam. A violência doméstica diz respeito ao agressor usar seu controle, e a não perdê-lo. Suas ações são extremamente deliberadas.
Segundo mito
A vítima é responsável pela violência porque a provoca.
Fato
Ninguém pede para ser agredido. Ainda, ninguém merece sofrer agressão, independentemente, daquilo que diga ou faça. Todos têm o direito de viver sem sofrer violência. Ninguém deseja que o cônjuge seja abusivo. As mulheres cujo segundo ou terceiro parceiro são agressores, muitas vezes serão tidas pelo outros como culpadas pela violência – “deve ser algo com ela”. Na verdade, o agressor usa a tática do charme no início do relacionamento a fim de descobrir que ela já foi vítima de abuso. Então usa essa informação para culpá-la pela violência – “Veja, o problema está com você, ou seu outro companheiro também não a teria agredido” ou, para silenciá-la, “Você não irá contar para outras pessoas porque elas nunca irão acreditar visto que você já disse isso antes”.
Terceiro mito
Se a vitima não gostar, ela pode deixar o relacionamento.
Fato
As vítimas não gostam do abuso. Elas permanecem no relacionamento por muitos motivos, incluindo o medo. A maioria, por fim, acaba saindo dessa situação. A provocação da vítima na violência doméstica não é diferente do que em qualquer outro crime, ou seja, não há provocação. As mulheres agredidas muitas vezes fazem repetidas tentativas de deixar o relacionamento violento, mas são impedidas devido ao aumento da violência e das táticas de controle da parte do agressor. Outros fatores que inibem a capacidade de a vítima fugir incluem a dependência econômica, poucas opções viáveis de acomodação e apoio, resposta inadequada do sistema judiciário criminal ou de outras agências, isolamento social, impedimentos culturais ou religiosos, compromisso para com o agressor e o relacionamento e medo de sofrer ainda mais violência. Estima-se que o perigo à vítima aumenta em 70% quando tenta fugir, visto que o agressor intensifica o uso da violência quando começa a perder o controle.
Quarto mito
A violência doméstica somente ocorre em pequena porcentagem nos relacionamentos.
Fato
Estima-se que a violência doméstica ocorra em ¼ a ½ de todos os relacionamentos íntimos. Isto se aplica a relacionamentos heterossexuais como homossexuais.
Quinto mito
As mulheres da classe média e alta não sofrem agressões com tanta freqüência quanto às mulheres pobres.
Fato
A violência doméstica ocorre em todos os níveis socioeconômicos. Visto que as mulheres com dinheiro, normalmente, têm mais acesso a outros recursos, as mulheres mais pobres tendem a utilizar as agências comunitárias e, portanto, são mais visíveis.
Sexto mito
Os agressores são violentos em todos os seus relacionamentos.
Fato
Os agressores decidem ser violentos com seu cônjuge da forma como jamais considerariam tratar outra pessoa.
Sétimo mito
Bebidas alcoólicas e consumo de drogas provocam o comportamento agressivo
Fato
Muitos agressores não bebem ou consomem drogas. Embora muitos cônjuges abusivos também consumam bebidas alcoólicas e/ou drogas, esta não é a causa subjacente da agressão. Muitos usam essas substâncias como desculpa para explicar sua violência.
Oitavo mito
Se a mulher sofre agressão uma vez, será sempre agredida.
Fato
Embora algumas mulheres que sofreram agressão tenham passado por mais de um relacionamento abusivo, as mulheres protegidas pelos serviços contra a violência doméstica têm menor possibilidade de entrarem em outro relacionamento abusivo.
Nono mito
É fácil deixar um relacionamento abusivo, simplesmente juntando os pertences e indo embora.
Fato
Isto não é verdade. O agressor tende a isolar a vítima ao não lhe dar dinheiro, impedindo-a de conseguir um trabalho, de estar com a família e amigos. A dificuldade de pagar abrigo para as crianças e sua sobrevivência torna quase impossível o simplesmente juntar os pertences e partir
Décimo mito
Somente as mulheres são vítimas da violência doméstica.
Fato
Os homens também são vítimas da violência doméstica, mas muitos têm vergonha de informar o abuso. Um estudo bem divulgado, realizado pelo Dr. Murray Strauss, da Universidade de New Hampshire, revelou que as mulheres usam meios violentos para resolver o conflito no relacionamento com tanta freqüência quanto os homens. Contudo, o estudo também concluiu que quando o contexto e as conseqüências de uma agressão são medidos, a maioria das vítimas está no grupo de mulheres. O Departamento de Justiça dos EUA descobriu que 95% das vítimas de abuso praticado pelo cônjuge são mulheres. Os homens podem ser vítimas, mas isso é raro.
Décimo primeiro mito
As crianças em lares onde ocorre a violência tendem a se tornarem vítimas ou agressores.
Fato
Isto, infelizmente, é verdade. Embora pareça que as crianças estejam dormindo ou não comentem a respeito do que vêem e ouvem, elas são afetadas. As crianças reproduzem o que os adultos fazem em sua vida e o ciclo da violência prossegue.
Décimo segundo mito
Os agressores são sempre pessoas más e cruéis.
Fato
Não é verdade. Algumas das pessoas mais agradáveis que você conhece são agressores e se encontram em todas as classes sociais e econômicas. Noventa por cento dos agressores não têm antecedentes criminais.
Décimo terceiro mito
Finalmente, o abuso irá cessar.
Fato
Sem ajuda profissional, os agressores irão continuar. O abuso, normalmente, se torna mais freqüente e mais violento, algumas vezes resultando em morte
Décimo quarto mito
O ciclo da violência é rompido quando acaba o relacionamento.
Fato
Os momentos mais perigosos para a vítima podem ser quando elas deixam o relacionamento sem um plano de segurança. Sem intervenção, os agressores continuarão o abuso.
Décimo quinto mito
A violência doméstica é, normalmente, um caso isolado.
Fato
Agredir é uma forma de coerção e controle que uma pessoa exerce sobre a outra. Agredir não é apenas um ataque físico. Isto inclui a repetição de várias táticas, incluindo intimidação, ameaças, privação econômica, isolamento e abuso psicológico e sexual. A violência física é apenas uma das táticas. As várias formas de abuso utilizadas pelos agressores os ajudam a manterem o poder e o controle sobre o cônjuge ou o/a companheiro/a
Décimo sexto mito
Os homens que agridem, geralmente, são bons pais e devem ter a guarda conjunta dos filhos caso o casal se separe.
Fato
Os estudos revelam que os homens que agridem a esposa também abusam dos filhos em 70% dos casos. Mesmo quando os filhos não sofrem abuso direto, eles sofrem ao verem um cônjuge agredir o outro. Os agressores, muitas vezes demonstram acentuado interesse pelos filhos quando da separação como um meio de manter o contato, e assim controlar o cônjuge
Décimo sétimo mito
Quando há violência na família, todos os membros participam na dinâmica e, portanto, todos devem mudar o comportamento para que cesse a violência.
Fato
Apenas o agressor pode por fim à agressão. Agredir é uma escolha dele e, portanto, deve ser responsabilizado. Muitas mulheres agredidas fazem diversas tentativas de mudar o comportamento na esperança de que isso irá por fim ao abuso. Porém, não funciona. As mudanças no comportamento dos membros da família não irão alterar o comportamento violento do agressor.
Décimo oitavo mito
Os agressores e/ou as vítimas sofrem de baixa auto-estima.
Fato
Os agressores não têm baixa auto-estima. Eles crêem que receberam poder e controle sobre seu cônjuge. Eles fingem ter baixa auto-estima se isso levar outros a crerem que a violência não é sua culpa. Os sobreviventes do abuso podem ter tido uma excelente auto-estima no início do relacionamento, mas o agressor usa o abuso emocional: usa nomes depreciativos; faz com que a pessoa se sinta inferiorizada; diz que a culpa é dela a fim de destruir sua auto-estima. Alguns agressores procuram mulheres com baixa auto-estima, visto que acreditam que ela terá maior probabilidade de culpar a si mesmas e menores chances de informar a respeito do abuso. Outros agressores buscarão mulheres com elevada auto-estima visto representarem um desafio maior para exercer o controle ao longo do tempo.
Quero deixar bem claro mais uma vez que tudo isso eu sei por ter vivido e ainda vivenciar a violência em minha vida.
Temos parar de achar que o agressor é quem precisa de tratamento, o agressor precisa é de cadeia de segurança máxima. O perdão... Há é muito lindo falar do perdão para quem não perdeu mais de vinte anos de sua vida com um monstro dessa proporção... Eu não quero perdoar eu quero ser reparada por tudo que perdi, é um direito meu...


publicado por araretamaumamulher às 15:51 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009
Fala-se das conquistas da mulher, como se a mulher de nossos dias tivesse seus direitos reconhecidos e respeitados por toda a parte. No entanto, bem longe a realidade.
A mulher ainda vive, nos dias atuais, num clima de opressão e submissão, sendo violentada das mais variadas formas. Ainda está longe da prática a alegada igualdade de direitos entre homens e mulheres. O fenômeno é mundial, mesmo em países considerados de primeiro mundo, onde o progresso intelectual e econômico é notório, a discriminação é uma realidade. Desigualdade de salários no Japão, pensões inferiores na Inglaterra, violência física na Suécia e exploração nos trabalhos domésticos na Alemanha, especialmente das mulheres estrangeiras.
A violência contra a mulher remonta à Antigüidade, cabendo esclarecer que o termo violência é tomado em sentido amplo, para abranger todas as formas.
A história da humanidade é uma história de lutas pelo poder, pelo domínio.
A mitologia greco-romana nos oferece relatos dessas lutas em todos os níveis. Os homens disputam entre si, os deuses disputam entre si, os deuses disputam com os homens. Os mais fortes subjugam os mais fracos que devem ser servis, humildes e obedientes. As mulheres não ficam fora desse contexto. Muito são os relatos de sedução, de estupro e de violência contra a mulher. Os deuses se disfarçam e descem até os campos com o fim de seduzir as ninfas enganado-as ou estuprando-as.
Conta a mitologia grega criação dos homens por Prometeu e da mulher pelos deuses do Olimpo que, sentindo-se ameaçados de perder seu poder, tiveram a brilhante idéia criarem a mulher para levar os homens à perdição.
Por esta razão foi criada, a partir de uma estátua de bronze uma forma humana, capaz de sensibilizar e encantar o homem e que recebeu de cada deus um dom. Apolo lhe deu a voz macia, Mercúrio lhe deu a língua, Atena lhe ofertou um belíssimo vestido que permitia perceber suas formas suaves, Vênus lhe deu a beleza infinita, e assim, recebendo dons que a deixavam cada vez mais formosa, foi criada Pandora. De Zeus, Pandora recebeu uma caixa que deveria entregar aos homens. Com a missão de destruir a raça humana, Pandora desceu a terra, encontrando Epimeteu que se apaixonou perdidamente encantado com sua beleza e formosura. Esquecendo a promessa que havia feito ao seu irmão Prometeu que nunca receberia nada que fosse dado por Zeus, Epimeteu recebe de Pandora a caixa na qual foram colocados todos os males da humanidade, como o orgulho, a ambição, a crueldade, a traição, as doenças, as pestes... No fundo da caixa havia um único bem capaz de salvar a humanidade, a esperança. Mas a um gesto de Zeus, após saírem todos os males, Pandora fecha a caixa impedindo que a esperança seja recebida pelos homens. Assim, perdeu a raça humana, o paraíso e a felicidade que poderia conquistar com sua inteligência e seu trabalho. Culpa da mulher.
O relato bíblico da perda do paraíso tem na mulher a grande vilã. Eva descumprindo ordem de Deus toma do fruto proibido, tenta Adão levando-o a comer do fruto. O resultado é de todos conhecido. O pobre homem foi vítima da astuta mulher.
A idéia de grandes pensadores do passado acerca da mulher, nada tem de lisonjeiro. Vejamos:
Eurípedes considerava a mulher como “Vítima de irremediável inferioridade mental”.
Pitágoras, filósofo grego que deu grande impulso à matemática dizia: “Existe o princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e o princípio mau que criou o caos, a treva e a mulher”.
Aristóteles expressava o pensamento comum da época da seguinte forma: “A mulher é mulher em virtude de uma deficiência, que devia viver fechada em sua casa e subordinada ao homem”.
Shopenhauer, filósofo alemão, diria, muitos séculos depois: “A mulher é um animal de cabelos longos e idéias curtas”.
Com Jesus, tem início o longo e penoso trabalho de resgatar a dignidade da mulher. Foi o grande revolucionário judeu que deixou claro que a mulher, da mesma forma que o homem tinha uma alma e que poderia alcançar o reino dos céus.
Jesus, rompendo com os preconceitos da época, dialogava com as mulheres, a exemplo da samaritana, de Joana de Cusa, de Marta e de Maria, irmãs de Lázaro. Jesus não apoiou o apedrejamento da mulher adúltera, e aqui abrimos um parêntese para lembrar que ao lado de uma mulher adúltera existe um homem adúltero.
A prostitua de Magdala conversou com Jesus em público, numa demonstração inequívoca de que os preconceitos deveriam ser superados.
No entanto, sob a forte influência do judaísmo, com Paulo de Tarso, o cristianismo se desenvolve considerando a mulher a perdição do homem, a responsável pela perda do paraíso. Eis porque grandes filósofos ligados à Igreja tinham uma visão nada cristã da mulher, assim expressando-se:
Tertuliano: “Mulher és a porta do diabo. Persuadiste aquele que o diabo não ousava atacar de frente. É por tua causa que o filho de Deus teve de morrer; deverias andar sempre vestida de luto e de andrajos”.
São João Crisóstomo: “Em meio a todos os animais selvagens não se encontra nenhum mais nocivo que a mulher”.
São Tomás de Aquino: “A mulher é um ser “ocasional” e incompleto, uma espécie de homem falhado”.
Santo Agostinho: “A mulher é um animal que não é seguro nem estável; é odienta para tormento do marido, é cheia de maldade e é o princípio de todas as demandas e disputas, via e caminho de todas as iniqüidades”.
Nada mais violento que as expressões desrespeitosas desses pensadores, a respaldar ações de igual teor.
Eis os arquétipos predominantes em todas as sociedades da atualidade. A mulher é a causadora de toda desonra e de todo o mal, deve, pois sofrer.
O homem se acha superior à mulher em inteligência, capaz de fazer com melhor qualidade as coisas relacionadas com as atividades intelectuais, que exigem raciocínio lógico, e que a mulher além de inferior intelectualmente deve ser submissa. É a predominância do jogo de poder do qual ainda não se liberou. Detentor de um profundo egoísmo, o homem quer ser servido e vê na mulher uma serviçal para as tarefas consideradas inferiores como cozinhar e lavar roupas, cuidar da casa e dos filhos, além de transformá-la em objeto de seus desejos e prazeres sexuais, desconsiderando os desejos, os prazeres e o bem estar dela.
Esta idéia mesquinha leva-o a pratica de toda sorte de violência contra a mulher, independente de idade, grau de instrução e condição social.
Pesquisas revelam que a violência contra a mulher ocorre em todo o mundo e em todas as camadas sociais, que vai desde a discriminação com a mulher solteira, com a virgindade, a desigualdade salarial para exercício de funções iguais, exploração sexual, até o espancamento e o homicídio.
Até hoje inexistem dados precisos acerca da violência praticada contra a mulher no Brasil.
No entanto, pesquisas revelam que no Brasil, de cada 100 mulheres 25 sofrem violência física, das quais 90% acontecem no ambiente familiar. Vê-se, de logo, o alto índice de violência doméstica, a maioria praticada pelos maridos ou companheiros, padrastos, pais e irmãos.
Tais pesquisas ainda evidenciam que a maioria dos casos não é denunciada, havendo denúncia de apenas 1/3.
As mulheres têm medo de sofrer represálias, temem um escândalo com abalo de sua reputação no meio social, ou não sabem a quem recorrer. Insegurança, medo, indiferença das autoridades públicas e da sociedade, impunidade, dentre outros fatores, contribuem para que não haja a denúncia.
Julgo importante registrar que a mulher tem contribuído para manter essa situação, seja pela apatia com que recebe a violência ou vê violentadas outras mulheres, sem mobilização para qualquer tipo de reação e apoio, seja por aceitar sem questionar, padrões impostos pela mídia e pelo poder econômico, com vistas ao consumo, transformando-se, não raro, em objeto e símbolo sexual. A felicidade deixou de ser conseqüência de uma vida estável emocionalmente e realizada profissionalmente, com a satisfação das necessidades básicas e fundamentais de afeto, carinho, alimentação, habitação, instrução, cultura e lazer, de crescimento espiritual, enfim, de uma vida digna como ser humano, para estar na posse, no poder, na beleza e na juventude. A mensagem sub-reptícia que é passada pela mídia, é que para ser feliz, a mulher tem que consumir tais ou quais produtos, “malhar“ “x” horas por dia, usar roupas desta ou daquela grife, tomar café “magro”, enfim, tudo que lhe proporcionará posse, poder, beleza e juventude, comprando ilusão para mascarar uma realidade difícil, num processo de auto-anestesiamento.
Impõe-se despertar. A felicidade está na harmonia de uma convivência familiar e social de respeito, de solidariedade e de complemento.
Homens e mulheres são iguais em direitos, mas diferentes em funções. O homem não pode exercer a maternidade. A gestação e o parto são funções tipicamente femininas. A amamentação é função da mulher que tem organização física diferente da organização física do homem. Há, portanto, diferenças como estas que têm que ser observadas, respeitadas e tuteladas pela lei. Compreendendo estas diferenças e que elas se complementam, os sexos opostos devem viver em comunhão, num processo de doação recíproca, para que sejam felizes, e não em disputa pelo poder e pelo domínio.
Compreender esta realidade é questão de educação e de conscientização.
Lembremos que podemos tirar da caixa de Pandora a esperança, colocá-la em nossos corações para enfrentar o grande desafio de acabar com a violência sob todas as modalidades, em especial a violência contra a mulher.
O trabalho será árduo e ainda demandará tempo, mas de braços cruzados nada faremos. Organizemos-nos, portanto, e vamos à luta.


publicado por araretamaumamulher às 15:11 | link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito

Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009
Sou um corpo que deambula ao acaso,
Que vive com medo todo o dia.
Amostra de ser mal amado
Sem conhecer felicidade e alegria.

Uma mulher constantemente criticada
Que chora apenas escondida,
Consciente que não vale nada,
E a imagem totalmente denegrida.

Escondo os hematomas como sei.
Habituei-me há muito a mentir...
Vivo uma vida como nunca pensei,
Com a maior parte do tempo a fingir.

Esta mão, assim queimada, e a doer,
É porque sou tão distraída...
Meti-a numa panela a ferver
E fiquei tão arrependida.

Tapo as nódoas negras com roupa
De Inverno, mesmo no Verão.
Apenas porque sou meia louca
Passo a vida a cair ao chão.

A boca, assim cortada,
Foi apenas porque sorri...
Não sei estar calada...
Apanhei porque mereci.

Quando parti o braço direito,
Foi porque me maquilhei nesse dia.
Mas afinal, foi bem feito,
Porque parecia uma vadia.

O meu corpo está tão cansado
Não aprendo a me comportar
Para viver bem com meu amado,
Que tudo faz por me amar.

Farta dos meus erros e maldade
Subo até ao vigésimo andar!
Salto, enfim, para a liberdade,
E já sou feliz... a voar!


Outro
Hoje recebi flores.
MAIO
Hoje recebi flores!
Não é o meu aniversário
ou nenhum outro dia especial;
tivemos a nossa primeira discussão ontem à noite,
ele me disse muitas coisas cruéis que me ofenderam de verdade.
Mas sei que está arrependido e não as disse a sério,
porque ele me enviou flores hoje.
Não é o nosso aniversário ou nenhum outro dia especial.

JUNHO
Ontem ele atirou-me contra a parede e começou a asfixiar-me.
Parecia um pesadelo, mas dos pesadelos nós acordamos
e descobrimos que não é real.
Hoje acordei cheia de dores e com golpes em todos lados.
Mas eu sei que está arrependido
porque ele me enviou flores hoje.
E não é Dia dos Namorados ou nenhum outro dia especial.

JULHO
Ontem à noite bateu-me e ameaçou matar-me.
Nem a maquiagem ou as mangas compridas poderiam ocultar
os cortes e golpes que me ocasionou desta vez.
Não pude ir ao emprego hoje
porque não queria que se apercebessem.
Mas eu sei que está arrependido
porque ele me enviou flores hoje.
E não era Dia das Mães ou nenhum outro dia.

AGOSTO
Ontem à noite ele voltou a bater-me, mas desta vez foi muito pior.
Se conseguir deixá-lo, o que é que vou fazer?
Como poderia eu sozinha manter os meus filhos?
O que acontecerá se faltar o dinheiro? Tenho tanto medo dele!
Mas dependo tanto dele que tenho medo de o deixar.
Mas eu sei que está arrependido,
porque ele me enviou flores hoje.

SETEMBRO
Hoje é um dia muito especial: é o dia do meu funeral.
Ontem finalmente ele conseguiu matar-me. Bateu-me até eu morrer.
Se ao menos tivesse tido a coragem e a força para o deixar...
Se tivesse pedido ajuda profissional...
Hoje não teria recebido flores!


publicado por araretamaumamulher às 09:17 | link do post | comentar | favorito

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