Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009
Não conhecemos nosso destino e nem as circunstâncias interiores e exteriores que nos levarão ao sucesso ou ao malogro de nossas intenções de vida. O mal não necessita de nenhuma intrepidez de caráter: multiplica-se como sombra sem fonte de luz definida.
O bem requer um esforço de sociedade e uma disposição de vontade individual tais que sua realização é sempre um ato de coragem, como, aliás, a verdadeira alegria.
A distinção entre um e outro é objeto da ética e de seus finalismos morais.
A violência é a loucura do mal e a sua banalidade, para lembrarmos Hannah Arendt, pode ser mais danosa do que todos os maus instintos juntos.
Não podemos perder nossa capacidade de indignação.
A indigência ética - para lembrar agora uma expressão de Heidegger - de nossa época é o grande desafio de nossa sociedade. Buscar arrancá-la de um relativismo absoluto no qual tudo se compreende e tudo se perdoa, sem deixá-la resvalar pela pirambeira metafísica dos universalismos místicos e racionalistas, em que tudo se explica e nada se entende, é a tarefa maior que devemos nos propor realizar.
Estudar, sob os seus mais diferentes aspectos, os mecanismos da violência é, sem dúvida, um passo importante para o seu entendimento, mas não necessariamente para o seu perdão. Um pouco de Nietzche não fará mal a ninguém!
No mundo inteiro, pelo menos 60 mil mulheres (oito por minuto) perdem a vida por ano em resultado de violência doméstica - e este número foi registrado num total de apenas 40 países, imagine o real número de vítimas se o mundo é composto por mais de 190 países! E quantas outras não morrem, mas sofrem conseqüências dramáticas.
A forma como a vida de uma mulher é afetada pela violência é terrível, e na grande maioria das vezes seu dano é irreversível. E sempre crescente.
Normalmente começa com uma mudança de comportamento, uma evidencia de sintomas de ansiedade, depressão, e uma falta de resposta ás situações.
Em curto prazo existe uma grande irritabilidade, nos tornamos mais frágil, mesmo que muitas vezes não percebemos isso. Às vezes temos crises de choro, e começamos a nos perguntar por que estamos passando por aquela situação. E ai vem à culpa, começamos a nos sentir culpadas, por toda a situação de violência que estamos experenciando.
A culpa tem inicio porque até onde coseguimos perceber, tudo em nossa vida continua da mesma forma, mas o comportamento do nosso parceiro mudou. Começamos então a procurar por respostas e a nos questionar4: O que eu fiz para provocar a violência?
Começamos então a desenvolver o que chamo de “ritual de verificação”, que chega a ser uma obsessão, verificamos se a casa está em ordem, se as camas estão arrumadas, se nossos filhos estão limpos. Mas descobrimos que mesmo depois de sermos de tudo verificado, nosso parceiro chega a casa e arranja um outro motivo para iniciar um conflito. (No inicio são só conflitos)
Nossos limiares de resposta que estão baixos baixam ainda mais e das duas uma: ou ficamos paralisadas, passivas perante a situação, ou nos tornamos reativas (como a presa que tenta atacar para poder se libertar defender). São reações não elaboradas, pois são reações primarias.
É claro que a situação se difere de caso para caso, mas, normalmente, uma vez iniciado este ciclo agressão-reacção, a tendência é para que o ciclo de violência se torne mais freqüente e mais agressivo e, claro, as conseqüências na vítima também se vão agravando.
A certa altura começamos a pensar em suicídio - e algumas chegam a cometê-lo - em fugir de casa, -Eu fugi, com três crianças pequenas, e três malas de roupas, nessas horas não conseguimos pensar no lado financeiro da situação, só queremos fugir - em pedir ajuda à polícia, pois nos sentimos desesperada, queremos proteger a nossa saúde e a nossa vida, mas não sabemos como, não conseguimos ver perspectivas de um futuro melhor para nós e para a nossa família.
Por vezes a violência destrói-nos completamente por dentro, ficamos sem auto-estima e muitas vezes sentimos que não servimos para nada, pois não somos capazes de encontrarmos a soluções para os problemas do nosso lar, e também não somos capazes de mantermos o nosso casamento.
E é preciso falar também das conseqüências físicas, pois muitas mulheres ficam com cicatrizes ou até deficiências físicas para toda a sua vida, em resultado de agressões, e muitas chegam mesmo a entrar em coma ou perder a vida.
Quando não encontramos apoio, a longo prazo podemos ter grandes dificuldades em nos relacionar com outras pessoas, especialmente homens, mas também com os nossos filhos. Podemos também nos tornar uma pessoa fria e agressiva, porque a dor que guardamos dentro de nós é imensa.
Mas mesmo com essa imensa dor, muitas de nós conseguimos com a ajuda de longos períodos de terapia superar esses traumas. Mas estamos falando da capacidade individual de cada uma de nós, isto é, da forma como lidamos com a situação, e também com a nossa capacidade de resiliência. Ou seja, temos que encontrar mecanisos de defesas, para continuarmos a sobrevivermos. E muitas vezes o nosso interior é o único espaço onde nos sentimos livres e seguras, onde preservamos nossa identidade como mulheres.


publicado por araretamaumamulher às 07:07 | link do post | comentar | favorito

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