Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010
algumas reflexões sobre uma questão complexa

Lucidalva Mª do Nascimento*

"A subordinação da mulher ao homem mostra que as relações entre homens e mulheres se produzem e se reproduzem dentro do processo social como um todo, e a maneira como estas relações se produzem e reproduzem, em detrimento das mulheres. Ao tomar a subordinação da mulher ao homem como questão central a ser analisada, podemos, então, verificar como as relações dessa subordinação de gênero estão vinculadas a outros problemas que afligem as mulheres, como a violência".
O problema social da subordinação, opressão, discriminação e exploração da mulher não está na mulher, assim como o problema étnico não está no negro ou no índio, nem o problema dos sem - terra ou de moradia está no agricultor ou no sem-terra. Está nas pretensas formas de organização e de convívio, isto é, de exploração e dominação criadas, mantidas e atualizadas pela sociedade que, através do tempo, legitimam a "superioridade" e a conseqüente dominação dos homens sobre as mulheres, dos brancos sobre os negros e índios e da classe dominante sobre a classe operária.
Portanto, para entender a violência contra a mulher, é importante trabalhar com o conceito da relação social de gênero. Isso significa aceitar que as relações entre homens e mulheres na sociedade não são derivadas da biologia. A diferença biológica é palpável e está incluída nas relações entre pessoas de sexo diferente. Mas é também evidente que essa diferença se delimita na determinação física do corpo e nas funções de macho e fêmea para a reprodução biológica da espécie, e nada justifica que, a partir dessa diferença, se constituam modelos de relações sociais que impliquem a subordinação de um sexo ao outro, e que a violência esteja presente nesta relação.
Sabemos que a violência contra as mulheres não afeta apenas as mulheres pobres do Terceiro Mundo. Ela é uma constante no cotidiano das mulheres, atravessa ideologias, classes sociais, raças e etnias. Ela representa um abuso físico, sexual, emocional e econômico no seio da família. Ela nega a auto-estima às mulheres e destrói sua saúde, causando-lhes danos físicos e psicológicos, além de entorpecer o desenvolvimento humano das mulheres, obstaculizando a sua participação na sociedade: tornando-as vulneráveis e temerosas, fazendo com que permaneçam à margem dos processos de tomada de decisões. É uma forma de controle que limita sua capacidade de optar, em quase todas as esferas (escolas, lar, trabalho, espaço público).
Suas causas estão relacionadas com as desigualdades entre homens e mulheres e com a hierarquia de gênero, onde o masculino domina o feminino. O isolamento doméstico leva ao desconhecimento de seus direitos. A isso se somam a violência social e a perda de valores éticos, como o respeito e a solidariedade.
O contexto brasileiro tem sido palco dessa violência contra as mulheres. Dados levantados mostram que 70% dos agressores são maridos das vítimas; 52% delas são donas-de-casa que não trabalham fora e 37% exercem profissões consideradas femininas; 82% das lesões são em parte visíveis do corpo, para atingir a beleza das mulheres e criar-lhes estigmas; em 57% dos casos utilizaram-se meios cruéis. Isso tudo sob a justificativa do alcoolismo (53%) e do ciúme (14%).
Os motivos que levam à prática da violência contra a mulher podem ser considerados sem importância: os agressores apenas justificam o poder e a dominação que o homem exerce sobre a mulher. Em nome do "amor", da "moral", e da "honra", a mulher é constantemente maltratada, espancada, humilhada e assassinada. O ciúme a embriaguez, a recusa à reconciliação são pretextos usados como causa da violência praticada contra a mulher.
A maioria da violência ocorre no ambiente doméstico, na família. Portanto o agressor é sempre alguém da confiança e do convívio da vítima (pai, padrasto, irmão, vizinho, tio, compadre, marido, namorado, companheiro, amante). Isto nos leva a repensar uma forma de organização do núcleo familiar, onde a família é colocada pela sociedade como um espaço de segurança da mulher.
Essa violência, quando não se dá de forma evidente, ocorre com freqüência no cotidiano das mulheres, embutida e disfarçada através do pensamento dominante como a segurança da cultura machista de que "a mulher é propriedade do homem", de forma a perpetuar o poderio do macho sobre a fêmea, a conveniência da sociedade de que "em briga de marido e mulher não se mete a colher" e o apoio da igreja, quando impõe às mulheres obediência e submissão.
A violência praticada pelos homens contra as mulheres demonstra a intenção explícita de submeter a mulher às suas vontades. Representa um abuso físico, psicológico e sexual, deixando marcas profundas no corpo e na vida das mulheres.
A violência física toma forma quando o homem esbofeteia, belisca, morde, dá socos e pontapés, espanca, maltrata, esfaqueia, alveja a tiros e até mesmo mata a mulher.
A violência psicológica se apresenta quando o homem galhofa da mulher, insulta-a constantemente, critica-a sempre, calunia e difama, grita com ela, desvaloriza seu trabalho e a faz viver com sentimento de culpa e inferioridade. Ameaça-a de morte ou de tomar-lhe os filhos, levando-a, por vezes, até ao suicídio.
A violência sexual se manifesta quando o homem obriga a mulher a ter relações sexuais, com ele ou com outros, ou a força a prática sexuais que não a agradam. Nos crimes sexuais a mulher tem seu corpo, sua vontade e seus direitos negados, numa demonstração de brutalidade extrema do homem sobre a mulher.
Onde se Estrutura a Violência
a) na família patriarcal - com a separação do público e do privado, a negação da participação da mulher no espaço social, as relações afetivas e sexuais são baseadas no poder do homem sobre a mulher;
b) na educação (diferenciada) - educação da mulher voltada para a submissão, para a maternidade, onde as mulheres aprendem a ser frágeis, a não se defenderem;
c) na ideologia (dominante) - formação do imaginário do indivíduo: a sexualidade no imaginário é baseada na violência, é um ato de poder e não de afetividade;
d) na linguagem - idéia de poder calcada na dominação masculina. A linguagem exclui a mulher de qualquer possibilidade de poder, há uma desvalorização da mulher chegando até à pornografia;
e) nos meios de comuniação - trabalham a idéia da sedução da violência: é a mulher que provoca, que seduz, que "pede".
A Construção de uma Relação de Poder:
a) Fazendo com que as mulheres reconheçam e assimilem sua inferioridade, as mulheres apreendem uma visão de si mesmas como objetos, como o outro (alteridade de que fala Simone de Beauvoir: você existe porque existe o outro, o homem);
b) a educação para o medo - o medo da violência, de sair às ruas, de falar, de protestar, da violência sexual, de enfrentar o mundo, etc. Construção de personalidades para o medo;
c) o elemento que torna mais difícil lidar com a violência é a humilhação. As relações pessoais e afetivas são permeadas pela agressividade, o que é contraditório com o discurso "oficial" e religioso do amor eterno, casamento, etc;
d) a aceitação social da violência sexista como "natural"e legítima faz com que ela se mantenha e se repita cotidianamente.


publicado por araretamaumamulher às 08:32 | link do post | comentar | favorito

2 comentários:
De Valéria a 18 de Janeiro de 2010 às 11:30
Excelente post... infelizmente nossa cultura ainda é voltada para a inferioridade da mulher. No entanto, apesar da existência da volência contra a mulher e contra as crianças, em termos de cultura, já avançamos um pouquinho.
Hoje as mulheres já começam a reagir e buscar seus direitos.
Beijo no coração


De Valdecy Alves a 31 de Janeiro de 2010 às 09:33
Leia artigo que escrevi sobre a Lei Maria da Penha. A partir de entrevista da própria Maria da Penha, em 31/01/2010, que defende a existência de uma lei para prender os que ameaçam. ATESTANDO ASSIM A INEFICÁCIA DA LEI QUE LEVA O SEU NOME. Após tanta violência e mortes já em 2010. Vitimando mulheres. MAS A LEI MARIA DA PENHA REALMENTE FRACASSOU? O QUE FAZER? QUAIS E COMO OS ATORES SOCIAIS DEVEM AGIR? Leia, divulgue e comente ARTIGO DO MEU BLOG, clicando em: www.valdecyalves.blogspot.com


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