Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
Onde começa a violência? Onde começa a aceitação da violência? Difícil de serem respondidas essas duas perguntas. Todos nós sabemos que ela se inicia na infância, mais para termos tido pais violentos tivemos também avôs violentos? É um circulo vicioso, sempre.
Minha infância foi uma infância de culpa, castigos, surras, sacrifícios, e muitas pregações e orações católicas.
Eu sempre me senti no olho do furacão, tudo era minha culpa. Passei grande parte da minha infância ouvindo minha mãe contar para sua família, minhas tias e avó o quanto eu era porca, relaxada, preguiçosa, mentirosa. Tudo o que eu fazia ou dizia cabia em um desses adjetivos. Eu nunca ia dar certo. Tudo o que estava errado era culpa minha. O simples fato de ter nascido, já era o principal problema. Afinal eu era uma menina.
Sempre era enfatizando o fato de que eu recebia muito mais do que merecia. Seja em bens materiais ou em afeto, atenção, e outros. Como eu nunca recebia nada de nenhum dos itens, conclui que não merecia ter nada.
Não me lembro de poder brincar, me divertir, ser feliz. Tudo na minha infância vinha carregado de um sentimento muito pesado de culpa e de medo, de castigo e de sacrifício. Quase nunca íamos a festas, e quando íamos, o sentimento de esta fazendo uma coisa que “Deus” não gostava era enorme.
O Deus que conheci na minha infância, era um Deus terrível, que não gostava dos ricos, que não gostava que fossemos alegres e felizes. Era um Deus que cobrava um preço muito alto, por nada, ou melhor, para a destruição.
O único prazer totalmente liberado em minha casa era comer, minha mãe fazia comidas e mais comidas...
Carreguei comigo esse ranço de pecado, de humilhação, de medo, de verdadeiro terror mesmo, durante todo o meu casamento. Esse medo do que iam pensar de mim, do que ia acontecer comigo.
A sensação de que eu tinha algo que, poderia ser descoberto e que faria com que as pessoas não me aceitassem. Um medo terrível, eu vivia em sobressalto. Foi assim que passei minha infância, minha adolescência e o meu casamento.
Na verdade muitos anos depois do meu casamento ter acabado, eu ainda me sentia assim. Aquele medo terrível, de que as pessoas fossem descobrir algo, a meu respeito.
Hoje fico me perguntando descobrir o que?
Jamais me senti digna de reclamar, de dizer o que estava sentindo. Alias era proibido isso na minha infância.
O fato de me sentir o bode expiatório em uma família desestruturada, desajustada, e totalmente insana, não podia de forma alguma ser reclamado. Eu ainda deveria era me sentir feliz, por eles ser tão religiosos.
Assim aprendi a fugir, e a esconder no meu corpo, toda a dor, todo medo, toda a humilhação.
Aprendemos um modo de viver, ou melhor, de sobreviver às adversidades, e nos adaptamos a ele de tal forma que depois fica muito difícil sair. Sermos transformados.
Sempre me senti incapaz de cuidar de mim, sempre ter alguém que me amparasse, e por isso me vi incapaz de cuidar dos meus filhos também. Foi por isso que nunca entrei judicialmente contra o pai deles, por não me achar digna de cuidá-los, ou capaz de fazê-lo.
Assim fui me tornando alguma coisa solta, sem uma estrutura, sem historia, sem um grupo, ao qual eu pudesse dizer que fazia parte.
Nunca me senti parte da minha família, nunca me senti filha da minha mãe, irmã dos meus irmãos, filha do meu pai. Sobrinha das minhas tias, neta da minha avó. Eu sempre tive comigo a certeza de ser uma presença incomoda para todas essas pessoas.
E, por conseguinte nunca me senti namorada, esposa, mãe de ninguém...
Na verdade não conseguia me sentir parte integrante da vida.
Isso me levou a me valorizar tão pouco, me sentir pouco, ou melhor, não digna, me sabotar e não me preocupar em cuidar do meu ser.
Eu sempre fui de encontro com as humilhações, com a vergonha, e com o medo, por achar ser isso a única coisa que eu merecia receber da vida.
Não eu não tinha a menor consciência de tudo isso até passar por um processo longo de terapia, até conhecer o Pathwork eu não sabia de nada disso, eu simplesmente vivia esse drama, sem nem saber que isso era um grande drama.
Não tinha a menor consciência do quanto essas minhas atitudes me prejudicavam, e prejudicava a todos ao meu redor, principalmente aos meus filhos. Tinha o péssimo habito de achar que isso não causava dor em mais ninguém a não ser em mim. Achava que minha ferida estava tão bem guardada, escondida em quilos e mais quilos de gordura, que ninguém era capaz de percebê-la.
E que se alguém tentasse vê-la ainda tinha a cortina de fumaça dos meus cigarros.
Foi preciso me olhar no mais fundo do meu ser e assumir o que eu era e o que eu queria me tornar.
Achava-me indigna e queria ser digna, me achava feia e queria ser bonita, me achava desconectada e queria ser conectada, me achava solta e queria fazer parte de algo,
Achava-me amarga e queria ser doce, me achava péssima e queria ser ótima.
Na realidade eu não achava nada, eu sentia tudo isso e gostaria de me sentir diferente, de outra forma, porque aquela estava doendo muito e não agüentava mais.
Queria-me sentir amada, querida, desejada, esperada, conectada, inteligente, doce, bonita. Queria principalmente desesperadamente ser amado, saber que alguém no mundo sente falta de mim.
Eu então falei com Deus, como nunca tinha falado antes: “Deus eu te busco tanto, Você tem sido a única constante da minha vida. A minha busca por Você. Mas não nunca te encontrei. Quero que me diga que todo o meu erro tem concerto e que tudo isso, que venho vivendo não passa de um sonho ruim e que de agora em diante eu estarei segura nos seus braços.”
Sinto que tenho um caminho a seguir, o de descobrir o que isso tudo fez em minha vida.
Até hoje não consigo ser completamente inteira, às vezes fico pensando se um dia será.
Fique na luz e na paz
Fátima Jacinto
Uma Mulher


publicado por araretamaumamulher às 11:33 | link do post | comentar | favorito

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